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CONHECIMENTO E SUBMISÃO
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CONHECIMENTO E SUBMISSÃO NA TAREFA TEOLÓGICA

O estudioso de teologia tem uma tarefa desafiadora, compreender da forma mais fiel e sensível possível a realidade do ser em estudo, a saber, Deus. Mas, de forma óbvia e contundente, esta relação é totalmente desfavorável aos que se lançam na busca pela compreensão de Deus.

Isto, todavia não dispensa a realidade do paradoxo, porquanto, ao longo do desvendamento desvelado, Deus sempre compungiu homens a registrarem através da escrita a sua revelação, de tal modo que a Bíblia hoje pode ser compreendida como Deus grafado aos homens, afinal, sua Palavra é sua própria personalidade.

Porém a tarefa confiada aos homens é um tanto espinhosa, pois embora este tenha de fato o conhecimento de Deus através das Escrituras, a própria limitação humana não permite um conhecimento pleno, ou seja, alguns espaços ficarão vazios, dimensões onde sempre se incorrerá no perigo de preencher com as percepções excessivamente humanas.

Ser fiel a intenção original do autor sagrado definitivamente não é uma tarefa fácil, ainda mais quando se sabe que o caminho para “dar o significado” é sempre mais curto do que “achar o significado”.  Há, no entanto os que conseguem distinguir os termos “dar” e “achar”, se tornando então fieis proclamadores de uma verdade inefável.

Entretanto, mesmo esta condição leva a um novo perigo, que é a disposição interna, inerente a todos de se vangloriar de seus feitos, vindo tal figura a sentir-se merecedora de todos os reconhecimentos e aplausos. Parece, então que não são poucos os desafios para juntar de forma equilibrada conhecimento e sabedoria, por isso é válida a reflexão ora apresentada.

O debate escolástico na sua fase final se utilizava do termo latino asseidade que significa a qualidade do ser que é por si só, ou seja, que tem causa própria em si mesmo, não existindo fora de si. A ideia é que não existe absolutamente nada que exija sua existência nem condição necessária para que venha a ser.

É justamente deste ser que a teologia trata, o que de imediato provoca ou deveria provocar pavor por parte do pretenso estudioso da causa. Tal reação não seria de todo anormal principalmente por conta de que o contrário é rigorosamente correto, porquanto o homem se define na condição de abaliedade, ou seja, qualidade de alguém que precisa de outro para ser a sua causa inicial. Eis então o paradoxo estabelecido.

O panorama sobre o termo Deus é um tanto obscuro devido a origem incerta e remota deste, o que se sabe todavia é que se trata de um termo muito antigo que foi compreendido pelos israelitas do Antigo Testamento como uma palavra que denota algo de superioridade e autoridade sobre qualquer outro ser, mesmo os que são tidos por semelhantes.

Embora povos próximos a Israel, como os fenícios, tenham usado o nome “deus” para referir-se aos seus ídolos, foram os judeus que conseguiram expressar da forma mais absoluta possível a quem realmente o termo se referia, utilizando-se de seu próprio vocabulário. Com isto houve uma natural distinção sobre o que significava o seu uso, em relação a tantos outros empregos que eram dados ao redor do mesmo nome.

Para aqueles a quem foi revelado a grandeza de Deus, nunca faltou convicção sobre quem era contemplado com este nome, contudo ainda assim, nunca houve uma compreensão única ou definitiva sobre sua pessoa, pois até mesmo os que tinham a função de falar sempre sobre ele, frequentemente se sentiam indignos de sequer pronunciar o nome pessoal de Deus, “Iavé”.

A história do povo judeu atesta que pelo nome eles reconheciam a natureza e o caráter de Deus, embora isto não significasse que eles conhecessem plenamente o ser a quem prestavam reverência. Sabiam, todavia que era alguém digno de toda honra e temor.

A declaração de Êxodo 3.14 é latente no seu poder e na sua abstração, refletindo bem o caos que a frase “Eu sou o que sou” provocou na mente do interlocutor e de todos os seguintes. Deve ter sido apavorante, tanto para os primeiros quanto deve ser para os estudiosos de hoje, ainda mais quando se é deparado com a ideia de que é este, o ser e a razão do estudo da Teologia. Ora, diante disto, não se pode clamar por outro que não seja o próprio a quem se busca conhecer.

E ai, novamente o estudioso se depara com o dilema, pois foge de suas mãos qualquer possibilidade de manipular o ser em estudo, mas para que tenha alguma possibilidade de conhece-lo, precisa se deixar dominar por ele. Para o homem acostumado em ter suas percepções egoístas atendidas, é sempre fator de crise, saber que embora seja o interessado, precisa depender de Deus para que possa entender mesmo que minimamente sobre Sua pessoa. Se forma deste modo o paradoxo entre a asseidade divina e a abaliedade humana.

Semelhante ao Antigo, o Novo Testamento também fala de Deus como a divindade comum aos judeus antigos, o que é refletido na forma como eles se relacionam com Ele à semelhança dos seus antepassados. Nesta concepção herdada dos tempos veterotestamentários Deus sempre é visto como a autoridade última em qualquer área da vida.

Porém, o próprio termo Deus carrega consigo as habituais digressões dos nomes antigos, pois foi cunhado dentro de uma concepção politeísta de mundo e sem o propósito original de denominar o criador, mas de dar um título a um ser merecedor da mais alta honra.

A percepção comum era de seres sem uma conotação de divindade universal nem absoluta, de maneira que a percepção de Deus encontrada no Novo Testamento não pode ser remetida aos primórdios gregos do termo embora tenha sido este povo que deu esta alcunha às divindades ao seu redor.

Vê-se então uma nova crise na relação entre Deus e o homem, posto que embora este tenha sido capacitado a buscar aquele, foi do último que saiu a definição usual do primeiro. Sendo assim, descontrói-se pelo menos no que se refere ao nome, a condição de asseidade essencial ao ser divino, fazendo revelar o homem como um ser, embora limitado na sua essência, não tão desprezível como poderia ser.

Assim sendo, parte-se para uma nova visão na relação criador e criatura, pois embora aquele não tenha qualquer nexo ou exigência para com esta, percebe-se que foi permitido a este ser criado, ter a percepção de como deveria referir-se ao criador. Desta forma, sua busca por Deus não parte de um vazio, mas de uma possibilidade prévia estabelecida pelo próprio Senhor.

Então mais uma vez, o que se pode apreender é que mesmo a condição humana seja de uma abaliedade estabelecida, o homem é capaz de lançar-se rumo ao criador, embora sabendo que esta não é uma empresa fácil. O sentimento dominante deve ser então de uma humilhante dependência.

A dificuldade de compreensão de tal relação está descrita novamente no Novo Testamento quando a antiga teofania revelada a Moisés foi novamente relembrada nas palavras de Jesus quando repetiu o “Eu sou” de Iavé (Jo 8.58). A reação de não aceitação foi uma clara demonstração da dificuldade em compreender a aproximação do ser divino para com o homem.

Isto revela a tensão permanente entre o viver a expectativa da presença divina e a rejeição de sua presença quando ela acontece dentro da capacidade de compreensão do homem. A encarnação divina foi o mais claro exemplo disto. Continua até hoje a dificuldade de percepção entre a historicidade e a transcendência de Deus, conflito impossível de ser esclarecido plenamente no pensamento de um estudioso da Bíblia.

Uma forma comum encontrada pelos escritores sacros é de referir-se a Deus como o “Pai”, o que não resolve as intricadas questões previstas acima, porém serve de alento nesta relação que oscila entre a clareza das Escrituras e a dificuldade da interpretação quando se busca expressar a dimensão desta relação.

A percepção final a ser considerada pelo estudioso da Bíblia deve ser então, sempre de uma figura limitada na sua essência, mas a quem foi bafejado o sopro divino capaz de fazê-lo insuflar na busca pelo real entendimento daquele que o criou. Entrementes é valido nunca esquecer de tal fato, visto que é exatamente por conta dessa condição dado pelo criador à criatura que o homem é capaz de saltar em regozijo quando percebe que lhe foi concedida a graça de conhecer um pouco mais de quem o fez.

Isto implica amiúde, não esquecer de que o agraciado é o que compreende e não o que é compreendido, afinal quando o sentido é invertido, a teologia entra em colapso e vem inevitavelmente as heresias, que embora execráveis, também são uma realidade.

Pr. Otoniel Gomes Oliveira

Pastor da Igreja Cristã Evangélica em Cidade Operária, São Luís – MA. Bacharel em Teologia pela Faculdade Kurios. Formado em Teologia Pastoral e Mestrando em Ministério pelo (SCEN). Especialista em Estudos Teológicos pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper. Treinado em Liderança Avançada e Gestão de Pessoas e Comunicação pelo Instituto Haggai. É professor do SCEN com atuação em Teologia Sistemática/Liderança. Casado com Loide, pai de Lorena e Olavo.

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AS AFLIÇÕES E SEUS APRENDIZADOS:
O sofrimento visto pela ótica das Escrituras

Introdução

O sofrimento e suas aflições decorrentes são certamente temas que permeiam as Escrituras. Em todo o cânon, apenas poucos capítulos foram dedicados para apresentar um mundo livre de sua presença. Tais capítulos podem ser contemplados na origem das coisas, no livro dos Gênesis, apenas em seus dois primeiros capítulos, onde e quando o mundo fora criado ainda incontaminado com o pecado e na consumação da história quando livres da presença, maldição e condenação do pecado estaremos eternamente desfrutando da alegria eterna da redenção em Cristo.

Então, com o pecado original e sua consequência direta – a corrupção da criação e a morte como seu pagamento – o restante da trama bíblica em seus 66 livros, apresenta o sofrimento como uma realidade presente que será resolvido apenas na ocasião da parousia e no cumprimento da promessa do novo céu e nova terra como realidade presente entre os eleitos de Deus.

Por ser um tema recorrente não se pode ignorar a presença do sofrimento e suas manifestações em múltiplas facetas, que, independente da forma manifesta causa sempre desconforto, dor e necessita de respostas que tragam um porquê e também uma solução para o árido momento vivido por aqueles que sofrem. Quer seja na esfera individual, como por exemplo, a perda de um emprego ou a não conquista de um tão sonhado objetivo, ou na esfera coletiva, um desastre natural que tira a vida de famílias e comunidades inteiras, o sofrimento exige do ser humano algo que traga sentido e novos rumos e, a partir daí, se reinterpretar, reestabelecer, recomeçar e continuar.

Sofrimento, dor e suas aflições então fazem parte da natureza humana caída desde a expulsão do Éden e, enquanto viver no habitat corrompido pelo pecado o ser humano certamente sofrerá por dentro – doenças, traumas, perdas; por fora – relacionamentos destruídos, desconfianças, traições, ilusões; apesar de si– enchentes, terremotos, furações, tsunamis; e espiritualmente – opressões, possessões, divisões, fanatismos. As aflições e sofrimentos estão impregnados na humanidade e não há como ser diferente.

O presente artigo tem por finalidade principal observar biblicamente o sofrimento e as aflições e extrair das Escrituras uma forma de enfrenta-lo que sirva de crescimento espiritual e aponte para a glória de Deus, apesar e acima da dor.

Porque existe sofrimento e aflição?

Um pai que sepulta um filho vítima de um assassinato cruel, um marido que assiste de forma impotente o câncer devastar e consumir a vitalidade de sua amada esposa, uma criança inconsolável ao saber que seu pai fora preso por tráfico de drogas ou um vírus que está dizimando famílias inteiras. Tais cenários são extraídos da vida real e mostram como a realidade presente manifesta nefastos teores de um mundo submerso em sofrimento. Tais coisas não deveriam existir, não deveriam ser vividas por aqueles que são biblicamente considerados como coroa da criação de Deus, mas infelizmente existem e são presentes em muitas realidades. Uma pergunta então que requer uma resposta direta inevitavelmente é: Porque existe o sofrimento? Porque o ser humano prova o dessabor de uma vida cheia de aflições nas mais distintas áreas e situações?

Responder biblicamente a essas perguntas pode ser parte importante da construção de uma mentalidade teológica sobre o sofrimento e certamente há o interesse da Escritura em uma resposta direta que norteie o aflito a demonstre soberania, graça e propósito divino. De forma direta, objetiva e clara a Bíblia vai dizer que existe o sofrimento e suas aflições porque existe o pecado.

O teólogo neocalvinista holandês Herman Bavinck apontando a razão pela qual a humanidade vive em meio a dor e o sofrimento afirmou:

Todo sofrimento que atinge as pessoas sobre a terra – uma vida curta, uma morte repentina e violenta, fome, pragas, guerras, frustrações, esterilidade, perdas dolorosas, privações dos bens, empobrecimento, perda da colheita, morte do rebanho, e assim por diante – tem sua raiz no pecado, na verdade, nem sempre em pecados pessoais […], mas no pecado em geral. Sem o pecado não haveria sofrimento.[2]

No final do capítulo 1 de Gênesis há o relato da perfeita criação de Deus e de sua total aprovação com tudo o criado. Havia harmonia, ordem estabelecida, funcionalidade perfeita e beleza em tudo que existia. Conforme Sua vontade tudo se fez e nesse ambiente perfeito o criador coloca o homem para viver uma vida de relacionamento íntimo, de trabalho e de discipulado com o seu criador. O homem fora criado perfeito, em um ambiente perfeito para se relacionar com um Deus perfeito. “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” (Gn 1.31). Mas, desde a manifestação do primeiro ato de rebeldia contra Deus a humanidade tem provado o amargo sabor de sua escolha. Quando pecou, a raça humana trouxe sobre si a realidade da morte em seus mais amplos sentidos teológicos para a existência. O pecado trouxe sofrimento não apenas para a descendência adâmica, mas para todo o domínio pelo qual ele estava responsável assim como a criação envolvida no relacionamento pactual federativo representado por ele.

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também passou a todos os homens, porque todos pecaram.” Rm 5.12

O processo de morrer pode aqui ter implicações também filosóficas tanto quanto teológicas, pois mesmo gozando de plena vivacidade, a cada minuto que passa o ser humano está morrendo e carregando consigo toda a dor de morrer dia após dia. Fora do Éden a criação morre desde o nascer.

Agora, o ser que fora criado para viver no paraíso desfrutando do relacionamento com seu criador vive uma existência degradante e degenerativa. A morte passou a ser o fim de todos os homens, mas cedo ou mais tarde todos se encontrarão com ela. Não bastasse esta verdade, e ainda citando o episódio da queda, há também a maldição divina sobre a existência da natureza corrompida pelo pecado. As relações interpessoais são agora ofensivas e maltratantes, o relacionamento com o meio ambiente é hostil, o relacionamento com o corpo é destrutivo e impossibilitados de reconciliação por seus próprios atos com seu criador. “… Maldita é a terra por tua causa…” (Gn 3.17). Com a entrada do pecado o sofrimento vem por consequência, faz-se presente enquanto esta natureza não for redimida e é uma das marcas de um mundo decaído. Não há nada fora do Éden que esteja isento da maldição do pecado e de todo o sofrimento que ele trouxe para a humanidade. “O salário do pecado é a morte.” (Rm 6.23)

Como encarar o sofrimento biblicamente?

Entretanto, diante da realidade universal do pecado e do sofrimento que ele trouxe para a humanidade como devem se portar aqueles que querem extrair do sofrimento uma forma que aponte para a glória de Deus? Existe alguma possiblidade de fazer com que o sofrimento seja um aprendizado que reconfigure seu significado para muito mais do que dor e tristeza?

Há no livro de Gênesis a conhecida história de José (Gn 37-50). Diante de um enredo que envolvia maus-tratos e manifestações públicas de ódio (Gn. 37:4), ciúmes (37.11) e maquinações contra sua vida com requintes de crueldade (37.18ss), abandono e tortura (37.23-24), tráfico humano (37.28), mentiras e sofrimentos (37.33,35), tentações (39.7), prisão injusta (39.20), desprezo (40.23) e tantas outras coisas que não foram relatadas no livro certamente José sabia o que era uma vida de sofrimentos. Ele não era amado por seus irmãos, não tinha amigos, foi tornado escravo, sofreu uma prisão injusta, mas ainda assim quando ele compreende um conceito maior do que sua própria história de vida todo o sofrimento vivido ganhou novos contornos e propósito.

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. (Gn 50.20)

Qual o segredo para que José pudesse chegar a uma conclusão assim? O foco do sofrimento precisa ser tirado de quem sofre e colocado sobre aquele que rege todas as coisas de acordo com sua soberana vontade.

O pastor J.I. Packer certa vez alertou seus ouvintes sobre a seriedade do conhecimento de Deus diante do sofrimento. Ele, ciente da importância do foco correto no processo do sofrimento escreveu aos seus leitores sobre o perigo deste deslocamento de horizonte. “Despreze o estudo de Deus e você estará sentenciando a si mesmo a passar a vida aos tropeções, como um cego, como se não tivesse qualquer senso de direção e não entendesse aquilo que o rodeia.”[3]

Mesmo nos momentos de sofrimento e aflição, as lembranças e memórias sobre o Deus de seus pais fazia de José alguém que confiava que tudo em sua vida estava sob o controle divino. Havia um propósito maior e ele fazia parte disso, portanto, ao invés de se entregar a um comportamento pessimista quanto ao que sofria, ou viver seus dias mergulhado no sofrer e em suas aflições José passava pelos momentos crendo que Deus estava conduzindo e sustentando seu caminhar. O apóstolo Pedro em sua segunda carta escreve aos seus leitores sobre a forma bíblica dos cristãos enfrentarem todas as coisas, inclusive os sofrimentos e aflições desta vida. Ele diz:

Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou para sua própria glória e virtude. (2Pe 1.3)

Todas as coisas, inclusive os sofrimentos em suas multifacetadas formas são possibilidades ofertadas por Deus para que seus filhos sejam aperfeiçoados e conduzidos a uma vida de piedade e crescimento espiritual. Longe de achar que o sofrimento é sinônimo de inércia ou de abandono divino, o cristão deve entender que Deus certamente está garantindo que sua vontade seja exercida e tudo está conforme seu poder.

Outro personagem que pode contribuir para uma forma de encarar o sofrimento biblicamente é Jó. Sua famosa história, relatada no livro que leva seu nome apresenta uma forma de sofrimento provada por uma minoria neste mundo. De homem próspero, íntegro, temente a Deus, feliz, respeitado entre os vizinhos, exemplo de pai e sacerdote (Jó 1.1-5; Jó 29) ele viu sua vida ruir de forma repentina e sem justa causa. Enquanto a trama acontece nas regiões espirituais (Jó 1.6-12), Jó em terra só prova do amargo sabor das tragédias que atacam tudo que estava relacionado a ele. Seus filhos morreram de forma trágica, seu patrimônio foi devastado, sua reputação fora ofendida e seus amigos não acreditavam em sua inocência. Jó sofreu em seu corpo e mente duras aflições, mas três versículos chamam a atenção sobre como este homem reage em meio ao sofrimento:

Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou […] o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma. (Jó 1.20-22)

Ao longo de seu sofrimento Jó, embora desgastado por tamanhas catástrofes e dores, preferiu confiar em Deus e descansar em sua soberania pois reconhecia o tamanho e a magnitude daquele que criou todas as coisas. Jó confiava que Deus era senhor em todas as coisas inclusive nas perdas de sua vida e embora tentado a questionar o porquê de estar vivendo aqueles dias maus ele encontra no governo de Deus uma forma segura de saber que a vontade de Deus está acima da compreensão humana e que é mais sábio e seguro confiar naquele que administra toda a criação. (Jó 39-41).

Sua confissão final torna-se um bom indicativo sobre a forma como o cristão deve encarar o sofrimento.

Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. (Jó 42.2)

Em vez de empenhar tempo ensinando o cristão sobre como identificar as causas do sofrimento, a Escritura nos dirige ao Deus que sabe de todas as coisas e que é plenamente confiável. Em outras palavras, a Escritura não nos dá conhecimento para que tenhamos domínio intelectual de certos acontecimentos; dá-nos conhecimento para que nos acheguemos a Deus com toda confiança. A resposta para o problema do sofrimento está em, de algum modo, voltarmos para Deus e confiarmos nele quanto aos mistérios do sofrimento.

Aprendendo com as aflições

Uma vez percebida a universalidade e a realidade do sofrimento e suas aflições como consequências da maldição do pecado na humanidade deriva-se um caminho duplo de compreensão e aprendizado.

Ou Deus não consegue administrar o ritmo da vida de sua criação e suas demandas e vai, portanto, ser ineficiente em preservar os que são seus de sofrer – teoria defendida de forma mais abrangente pelo teísmo aberto; ou Deus, como bom administrador de todas as coisas apesar do sofrimento causado pelo pecado na humanidade é soberano a ponto de que todas as coisas, inclusive o sofrer redunde para seus propósitos e sua glória. A forma escolhida para encarar o problema do sofrimento apontará para o aprendizado final.

No Salmo 119:71 encontra-se uma aplicação de como a forma certa de ver o sofrimento desemboca em um aprendizado que glorifica a Deus e o exalta. “Foi-me bom eu ter passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos.”

Nesse verso existem importantes conceitos derivados da forma correta de sofrer e passar por aflições. O salmista, dada uma experiência certamente difícil chega a uma conclusão que pode assim ser apresentada:

1.   Passar pelo sofrimento revela ao homem o estrago que o pecado trouxe à criação.

Com toda a experiência de destruição e sofrimento que marcam a história da humanidade é inevitável perceber que algo está errado, que alguma coisa está aquém do que deveria ser e o sofrimento mostra a limitação e a fragilidade em que a vida humana está fundamentada. Quando alguém próximo sofre, ou quando o sofrimento cai sobre si essa é uma oportunidade de reflexão sobre quão corrupta e corrompida está a criação ao nosso redor e necessita urgentemente de um reparo, um conserto, uma redenção.

2.   O sofrimento faz o sofredor a buscar forças em quem o pode livrar de todo o sofrimento

Entregue ao sofrimento e suas aflições é impossível que muitos tenham forças e formas de superar o que tem vivido. Quando mergulhado em dor e sofrimento o ser humano tem a possiblidade de ver que a força de seus braços, sua conta bancária, seu sobrenome ou status não podem ajudar quando ele enfrente o maior de seus medos. Nessa hora, buscar ajuda naquele que pode todas as coisas e que tem tudo debaixo de sua autoridade é uma forma saudável de passar pelo vale da sombra da morte. O salmista entende que no sofrimento o homem olha para sua insignificância e para a grandeza de Deus e tem ali uma possibilidade segura de descansar nos braços do Todo-poderoso.

3.   O sofrimento faz o homem desejar a realidade redimida de todas as coisas.

O mais desejado para quem sofre é certamente o fim do sofrimento. Na doença, o alvo é a cura, na dor, o alvo é o alívio. Enquanto raça humana e criação contaminada pela maldição do pecado a solução para o fim do sofrimento é a redenção da criação. O mundo apenas estará livre do sofrimento quando a consumação do plano de redenção divina for cumprida cabalmente, quando novos céus e nova terra forem reestabelecidos e será lá onde finalmente não haverá mais dor ou sofrimento. As aflições e sofrimentos terão dia e hora para acabar e desfrutará dessa nova realidade todos aqueles que foram chamados por Deus.

O salmista reflete estas coisas a partir da experiência do sofrer. Ao invés de entregar-se ao sofrimento e fazer dele uma oportunidade para ofender a Deus e sua soberania ele aproveitou para refletir em tais aspectos. Ao ver o sofrimento ele sentiu o pesar pelo pecado e seu estrago na humanidade. Ao sofrer ele se viu impossibilitado de resolver as coisas por seus próprios meios e com o sofrimento seu anseio por redenção se tornou mais fervoroso, mais piedoso. O sofrimento aqui aponta para a glória de Deus.

Considerações Finais

A existência humana pós-queda tem sido marcada pela dor e pelo sofrimento. O homem, agora errante e expulso do jardim caminha em meio às aflições de uma vida distante de seu propósito original. Enquanto criatura, sofre por ter deliberadamente ofendido a seu criador e agora paga o preço pela desobediência. O sofrimento é análogo à natureza pecaminosa.

Mesmo assim, em Deus há uma grande manifestação de justiça e graça em ofertar àqueles que Ele soberanamente escolheu uma vida eterna longe de toda dor e sofrimento, sendo resgatados pelo sacrifício substitutivo e propiciatório de Jesus. Enquanto aguardam a consumação – a transformação redentiva de tudo o que existe – mesmo os eleitos sofrem por seus pecados e pelos pecados dos outros, mas há aqui uma possibilidade de olhar acima do mar bravio das circunstâncias e enxergar o Senhor que governa todas as coisas de forma perfeita e justa. No sofrimento, o redimido tem oportunidade de testar sua confiança, os pilares de sua fé, sua certeza de salvação e seu amor àquele que o resgatou.

O sofrimento longe de ser um jeito sádico de Deus se relacionar com os homens é uma oportunidade de confiar inteiramente nele e descansar em seus eternos propósitos. Se a fé diz que Ele é o bom pastor suas ovelhas devem crer e confiar em seu pastoreio.

Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Rm 8.28)

Referências

[1] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada – o pecado e a salvação em Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.p.180.
[2] PACKER, J.I. O Conhecimento de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.p.19.

Pr. Madson Costa Oliveira

Pastor da Igreja Cristã Evangélica no Cohatrac. Especialista em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Mestre em Ministério com ênfase em Aconselhamento Bíblico pelo SCEN. Doutorando em Ministério Pastoral pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Casado com Meriellie Brandão, pai de Alice e Théo.

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O QUE É ACONSELHAMENTO BÍBLICO
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O QUE É O ACONSELHAMENTO BÍBLICO?
Definições e distinções

Introdução

No relato das origens há a menção clara de que o homem foi criado para ser governado por uma palavra externa que tinha o poder de direcionar os seus passos. A autonomia nunca foi uma realidade para a humanidade (Gn 1.27-30). Embora o primeiro casal fosse dotado, assim como os anjos, do uso da liberdade de natureza contrária, ainda assim isso não significaria viver de forma autônoma, mas sim viver em obediência ou desobediência à teonomia estabelecida e ao impulso contrário à santidade original. O conselho interno e externo é o que guia o homem em seus mais íntimos desejos desde os primórdios criacionais.

O episódio da queda pode ser analisado pela consequência de ouvir um conselho distinto da vontade divina (Gn. 3:1-6) e com esse conselho, as consequências de sua decisão. O homem tornou-se culpado e maldito, depravado e moralmente corrupto.

A premissa do Aconselhamento Bíblico enquanto disciplina teológica e atividade ministerial é: Em consequência da queda, por conta de uma palavra que direcionou o homem contra a vontade de Deus, o pecado é o maior problema do homem e qualquer sistema que promova a capacidade do homem para restaurar a si mesmo é falho porque ele não pode se acertar com Deus por sua própria vontade ou sabedoria.

John Piper afirma que “Aconselhamento bíblico é o uso da linguagem centrada em Deus, saturada de Bíblia e sintonizada com o emocional para ajudar as pessoas a se tornarem devotadas a Deus, exaltadoras de Cristo e que, alegremente abnegadas, amam outras pessoas.”[1]

E o que isso quer dizer?

Isso implica em redirecionar o coração do aconselhado para áreas de extrema importância de sua vida, que estão acima de seus conflitos relacionais, profissionais ou volitivos. O aconselhamento bíblico preocupa-se em reorientar o coração que sofre para sua situação em Deus e sua afinidade com seu propósito maior de vida.

Isso também não quer dizer que aconselhar é apenas uma tarefa evangelística que desconsidera o sofrimento apresentado pelo aconselhado. Mas, uma vez que entendemos os estragos devastadores do pecado e suas eternas consequências para a vida humana, conselheiros não podem ignorar que a maior parte dos problemas surgidos na vida dos aconselhados é em certa medida por conta do pecado e suas múltiplas formas de se manifestar.

James Boice certa vez afirmou: “As pessoas precisam ser desesperadamente serem ensinadas sobre a natureza de Deus. Elas precisam desesperadamente de uma perspectiva bíblica e teocêntrica sobre tudo.”[2]

Podemos afirmar que Aconselhamento é pegar o aconselhado e seus problemas em inseri-los em Deus e sua Palavra e a partir daí buscar orientações bíblicos sobre como lidar com sua vida, seus dilemas e seu futuro substituindo assim os padrões de vida não cristãos (velha natureza pecaminosa) por um novo padrão de vida que seja mais parecido com Cristo.

O texto de Rm 15.4 nos dá base para essa afirmação: “Pois tudo quanto outrora fora escrito, para nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras tenhamos esperança.” Observamos que o Aconselhamento Bíblico dá ao desesperançado sob qualquer área um motivo para novamente ter esperança para o aqui e para a eternidade.

O foco do Aconselhamento, portanto, é ministrar as Escrituras, o conselho de Deus e sua vontade, falando em verdade em amor àqueles que precisam de conselhos para seus caminhos.

Wayne Mack comenta que:

Aconselhamento digno do nome de “cristão” deve ser propositadamente e exaustivamente cristocêntrico – um aconselhamento que destaca quem e que Cristo é, e o que Ele fez por nós em Sua vida, morte e ressurreição. O aconselhamento cristão enfatiza que Cristo está fazendo por nós hoje, com sua intercessão por nós à direita do Pai e o que Ele fará por nós no futuro. Também enfatiza o ministério atual do Espírito Santo na vida do crente.[3]

Para tal tarefa, faz-se necessário que o conselheiro tenha a convicção de que as Escrituras são suficientes para a tarefa de aconselhar e superiores a qualquer outro material que o mundo tenha a oferecer (Hb. 4:12; Pe.1:3,4; 2Tm 3:16,17).

Mas, o que significa a suficiência das Escrituras? Quais suas implicações?

Como bem disse Clutterhan:

O aconselhamento bíblico não é um esforço de desejar o bem de outros, mas um árduo sacrifício pessoal para ensinar a Palavra de Deus e uniri-se aqueles que sofrem, a fim de ver uma pessoa ser transformada de dentro para fora, começar a louvar a Deus e caminhar em santidade se tornando mais parecida com Jesus […] Na extremidade mais complexa do espectro, o aconselhamento bíblico é a totalidade do conselho de Deus oferecida de maneira sistemática, compreensível, relevante e amorosa.[4]

Portanto, quando pensamos no instrumento que capacita técnica, teórica e espiritualmente o aconselhamento bíblico chegamos a uma conclusão que de todas as doutrinas sobre a Escritura, existe uma doutrina que se torna proeminente e substancialmente basilar: a suficiência das Escrituras.

Podemos resumir essa doutrina novamente usando Clutterhan:

A doutrina da suficiência das Escrituras ensina que Deus criou um recurso abrangente para o homem – Sua Palavra inspirada, inerrante, infalível e autorizada – para cooperar com a obra de salvação do Espírito Santo e nos guiar sabiamente em todas as questões da vida, seja por mandamento direto ou preceito.[5]

Afirmar que a Bíblia é suficiente então tem a ver com a robustez daquilo que ela diz ser para as mais diferentes situações as quais o homem enfrenta no mundo caído. Sua suficiência está ligada ao conceito de que para cuidar de seu povo e todas as demandas de seu coração, não apenas as espirituais, Deus deu uma Bíblia completa (em muitos sentidos) para que a humanidade consulte a fim de se tornar aquilo que o criador desejou.

Em outras palavras, afirmar que a Bíblia é suficiente é sinônimo de afirmar que aquilo que a Escritura possui é na proporção exata para atender ao seu fim proposto. E que fim é esse? Paulo assim o resume em 2 Tm 3.16: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, afim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (grifo do autor)”. Ora, se perguntarmos à tradição reformada qual a finalidade principal do homem, perceberemos que apenas pela Escritura teremos essa oportunidade de realizar esse fim. Portanto, a Escritura é suficiente para conduzir o homem à sua finalidade principal.

O aconselhamento bíblico, sendo definido pela Escritura e pautado naquilo que está escrito em suas páginas, aponta que a Bíblia e a ela somente será outorgado o papel de reconhecer o que é falso; isto é, caso uma alegação de verdade seja vista como contraditória ou comprometedora de uma verdade estabelecida nas Escrituras, essa alegação de verdade concorrente será declarada falsa.[6]

À luz de algumas palavras-chaves do Novo Testamento extraídas condensadamente do texto de 1Ts 5.14 aconselhar é biblicamente instruir, encorajar, avisar, acalmar, amansar, advertir, admoestar, exortar, corrigir; resumidos na tarefa ministerial de aconselhar. Esses termos descrevem na Bíblia o modo como devemos ajudar ou aconselhar outros crentes.

·         νουθετεῖτε – νουθετέω – admoestar

·         παραμυθεῖσθε – παραμυθέομαι – encorajar, incentivar, consolar

·         ἀντέχεσθε – ἀντέχω – sustentar, suportar, dar apoio

·         μακροθυμεῖτε – μακροθυμέω – ser paciente

Aconselhamento Bíblico Noutético, portanto, é a apresentação dos três elementos-chave que, segundo Jay Adams, estão implícitos no conceito bíblico de aconselhar alguém que sofre: confrontação, mudança e cuidado.

2Timóteo 3.16,17 diz:

“Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; a fim de que o homem de Deus tenha capacidade e pleno preparo para realizar toda boa obra”.

Em outras palavras, a Bíblia nos foi dada pelo Espírito Santo para produzir em nós aquela mudança que buscamos no aconselhamento.

E, se for adequadamente usada, resultará nestas quatro coisas: ensino (doutrina e exemplo); convicção (do pecado, face à comparação da situação concreta com o padrão bíblico); correção (pela confissão do pecado e busca do perdão divino, com a consequente mudança moral, emocional e espiritual); instrução em justiça (para o exercício de uma conduta condizente com os padrões do evangelho).

O aconselhamento bíblico consiste então em ministrar as Escrituras àqueles que enfrentam problemas ou que desejam a sabedoria e a orientação de Deus para suas vidas.

Aconselhamento como tarefa ministerial – abordagem histórico-teológica

No NT o aconselhamento bíblico aparece como um ministério da igreja local no qual os crentes em Cristo habilitados e guiados pelo Espírito Santo ministravam a outros a Palavra viva e ativa de Deus buscando evangelizar os perdidos e orientar os salvos (Cl. 3:16 e1Ts 5:14).

Ao longo da história e do distanciamento e profissionalização do clero e do público leigo o aconselhamento se tornou uma tarefa “sacerdotal” (o sacramento da confissão da doutrina católico-romana). Com a reforma protestante e a atuação ativa dos pastores puritanos na vida da comunidade local o aconselhamento retornou ao cotidiano dos cristãos. Puritanos como Baxter, John Owen, Jonathan Edwards são nomes que dedicaram tempo ao aconselhamento pelas Escrituras para tratar das “almas” de suas ovelhas. Os pastores puritanos eram comumente chamados de “médicos da alma” que curavam pela Palavra.

As primeiras décadas do séc. XX foram de crise para o Aconselhamento Bíblico por conta das seguintes influências:

  • O surgimento/fortalecimento da Psicologia e suas escolas – muitos pastores passaram a achar que a Psicologia e não a Bíblia tratam das emoções humanas.
  • A Psicanálise Freudiana e a ideia do comportamento movido pelo inconsciente humano.
  • O Behaviorismo e a propagação da teoria de Charles Darwin e Carl Rogers sobre a neutralidade moral do homem.
  • Teologia liberal e sua crítica à ortodoxia.
  • O surgimento da Psicologia Pastoral como disciplina teológica

Na década de 1970, Jay Adams com o lançamento do seu livro Conselheiro Capaz enfrenta todas as concepções do séc XX sobre o Aconselhamento e ressalta o Aconselhamento Noutético. Nas palavras de H. Lamberth:

O trabalho de Adams não foi perfeito. No entanto, compreendido dentro de seu contexto histórico, não havia outra forma dele ter acontecido. Adams trouxe a força de um fundador – e as falhas e limitações que vem com ela. Adams foi um Lutero. O que deve ser esperado é a necessidade de avanço. O que deve ser esperado é a reflexão e desenvolvimento teológico que tornem os cristãos sábios e amorosos, competentes a aconselhar. Este tem sido o trabalho da segunda geração de conselheiros bíblicos. E continuará a ser o trabalho das sucessivas gerações.

A partir de Adams uma segunda geração de conselheiros tendo como principal liderança David Powlison define uma melhor compreensão das causas orgânicas que levam ao comportamento desajustado, diferente da escola anterior.

A terceira geração tem nomes como Paul Tripp e Edward Welch e tais nomes são flexíveis ao diálogo entre a teologia do aconselhamento e as áreas das ciências humanas que lidam com o estudo do comportamento e emoções, especialmente das enfermidades mentais.

Fundamentos Bíblicos no Aconselhamento

Como já fora apresentado, o fundamento do aconselhamento bíblico é a própria Escritura Sagrada e sua suficiência por entender que ela é a mais alta voz e mais coerente resposta para todos os dilemas da humanidade. Isso se dá por que a Bíblia é a palavra do Deus criador de todas as coisas e que, portanto, conhece cada mínimo detalhe de sua criatura antes do desajuste do pecado em todas as áreas da existência.

Passemos, portanto, a falar de alguns distintivos sobre o Aconselhamento Bíblico:

O ACONSELHAMENTO BÍBLICO É CENTRADO NA VIDA COMO IGREJA

Conselheiros bíblicos não são profissionais que atendem pacientes em uma agenda movida por ganho financeiro. São primariamente cristãos maduros que amam a noiva de Cristo e cuidam daqueles que não conseguem lidar biblicamente com os conflitos de suas vidas.

A igreja local é o instrumento que Ele (Cristo) determinou para chamar o perdido para si.[7] É nesse contexto que os membros, maduros e neófitos são tratados sistematicamente pelas Escrituras e conhecem aquele que os redimiu. É na igreja local e através da ministração das Escrituras, o exercício correto dos sacramentos e a manutenção da pureza testemunhal que o caráter do indivíduo vai sendo moldado à semelhança do caráter de Cristo. Cuidado, edificação e santificação dos crentes é a tarefa central da igreja já afirmara Calvino.

É nesse contexto que Gl 6.1 apresenta a dinâmica do Aconselhamento Bíblico centrado na vida da igreja local. Observemos detalhadamente alguns pontos deste texto:

O texto responde algumas perguntas essenciais: Quem deve aconselhar? Quem deve ser aconselhado? Qual o foco do aconselhamento? Como agir como conselheiros? Que precauções tomar?

O texto começa com o vocativo “irmãos” demonstrando que o conteúdo a ser apresentado em seguida deve ser tratado no âmbito de família de fé. Portanto, o aconselhamento é uma tarefa fraterna e não profissional.

Em seguida o texto coloca o contexto em que acontece o aconselhamento: “se alguém for surpreendido em alguma falta”. Ao falar isso Paulo dimensiona a tessitura do aconselhamento. É aplicável a qualquer pessoa, independente de cargo, tempo de conversão, classe social ou outra coisa. Aqueles que estão lidando com as situações dessa vida de forma diferente do que as Escrituras orientam são alvo do aconselhamento bíblico.

Quem pode aconselhar? Paulo diz que os “espirituais” é que devem cuidar dos mais frágeis na fé. O aconselhamento é uma forma de cuidado onde os mais sólidos na caminhada sustentam e cuidam dos que tem poucas raízes – os neófitos.

O que deve ser feito? Paulo usa o imperativo “corrigi-os” – καταρτίζω – informando assim o que se espera do aconselhamento. O termo usado literalmente é preparer para fazer o que é certo, colocar em ordem, reparar. Dentro da abordagem que vimos em 1Ts 5.14 isso pode se dar de diversas formas.

O texto também nos conduz sobre a postura do conselheiro diante do sofrimento que está lidando com seu aconselhado. Com “espírito de brandura – ἐν πνεύματι πραΰτητος” agindo não como juízes ou carrascos sobre nossos aconselhados mas sim refletindo a santa presença e justiça de Cristo em nossas atitudes e falas. Literalmente Paulo fala uma postura de humildade, cortesia, gentileza e consideração.

Por fim, o apóstolo também destaca uma precaução que todos devemos ter: Nos guardarmos das inúmeras e distintas formas de pecado que também podem assolar a nossa alma.

Além de pecados que lidamos na vida cristã comum (a nossa velha natureza militando contra a nova criação) somos também tentados a cometer erros que nos desqualificam como ministros e conselheiros (1Tm 3.7; 2Tm 2.22).

O ACONSELHAMENTO BÍBLICO É CENTRADO NA NARRATIVA BÍBLICA

O conselheiro bíblico compreende a importância do pecado na humanidade e na vida do aconselhado (o que ele representa e que causou ao homem – Rm 3.23, 6.23) e após uma confrontação com esse pecado, primeiro em si (Mt 7.5) e depois daquele que o procura (Lc 17.3,4), chama-lo para ao arrependimento, conserto e tratamento de suas dores e sofrimentos pelo remédio oferecido pela Escritura. O conselheiro bíblico de forma paciente caminha ao lado dessas pessoas as servindo, amando, ajudando e encorajando.

O conselheiro deve avaliar todas as situações a partir da Cosmovisão Bíblica. O Evangelho e suas verdades são o parâmetro de tratamento para que não haja opiniões humanistas e influências pessoais na condução do problema.

Para os aconselhados que não professam a Cristo, o conselheiro deve ter como atividade ministerial o evangelismo como ferramenta de auxílio no tratamento.

Uma vez que a mudança do desejo é o alvo do aconselhamento cristão o conselheiro deve entender o caminho do pecado e seu tratamento. (Tg. 1: 14-15) – a dinâmica do desejo – vontade e atitude, ou como afirmou Agostinho memoria, intellectus e voluntas.

O ACONSELHAMENTO BÍBLICO É CENTRADO NA GlÓRIA DE DEUS

O ato de reconduzir vidas para que suas interações interiores e exteriores são restauradas a um patamar de doutrina, afeições, vontades, volições e desejos conforme as Escrituras ordenam refletem na glória de Deus.

Há vários textos importantes que podem ser mensurados para compreendermos como um Aconselhamento Bíblico deve ser centralizado na glória de Deus, seus efeitos e finalidade – 1Co 10.31, Sl 37.4,7; Sl 40.8-9.

Conclusão

Aconselhar, portanto, é uma atividade que possui caminho muito bem estabelecido onde a Bíblia é o fundamento: A Bíblia como conselho de Deus para a humanidade – o Evangelho como caminho para a aproximação do Conselho divino – A mudança de atitude a partir da compreensão do problema maior e mais profundo – apresentar com solidez uma cosmovisão bíblica das coisas – fazer tudo para a glória de Deus.

Conselheiros bíblicos são ministros de Deus responsáveis por redirecionar o coração enganoso e enganado pelos desejos caídos pecaminosos para uma vida de devoção, intimidade e submissão à Palavra de Deus.

Como criador bondoso e cheio de misericórdia, o próprio Deus do Pacto deixou à disposição do povo da aliança aquilo que lhe apraz tanto na forma da piedade quanto da ética e da vida relacional para seus filhos. Seu povo, desde a revelação gloriosa em Ex 19.-16 fora desafiado a viver pela Lei e debaixo da instrução da Torá. Ao longo da história Israel pecou por transgredir essa Lei e sofreu as consequências por se afastar desse cuidado e orientação divina.

Aconselhar biblicamente é um retorno do coração, da mente e do corpo para a obediência à Escritura e para o deleite que ela proporciona.

Aconselhamento Bíblico é uma dádiva oferecida ao povo de Deus para ouvir a sua voz como o bom e supremo pastor de nossas vidas.


Referências

[1] MACDONALD, James. Aconselhamento bíblico cristocêntrico. São Paulo: Batista Regular do Brasil, 2016.p.30.
[2] Ibid.p.31.
[3] HINDSON & HOWARD. Nada além das Escrituras. São Paulo: NUTRA Publicações, 2018.p.41.
[4] CLUTTERHAN, Joshuan. Entendendo o que é aconselhamento bíblico. In:STREET, John (org). Homens aconselhando homens: uma abordagem bíblica das principais questões que os homens enfrentam. São Paulo: NUTRA Publicações, 2014.p.34.
[5] Ibid.p.43.
[6] MACK, Wayne. O que é aconselhamento bíblico? In:HINDSON & HOWARD (orgs.) Nada além das Escrituras: o aconselhamento e a Palavra de Deus. São Paulo: NUTRA Publicações, 2018.p.53.
[7] HINDSON & HOWARD. 2018.p.44.

Pr. Madson Costa Oliveira

Pastor da Igreja Cristã Evangélica no Cohatrac. Especialista em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Mestre em Ministério com ênfase em Aconselhamento Bíblico pelo SCEN. Doutorando em Ministério Pastoral pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Casado com Meriellie Brandão, pai de Alice e Théo.

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