A PLENA HUMANIDADE DE CRISTO
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A PLENA HUMANIDADE DE CRISTO – PARTE 1

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória…(João 1:14)

INTRODUÇÃO

Comprovadamente, nunca houve na história da igreja quem negasse que Jesus de Nazaré, filho de Maria, não fosse homem. Contudo, a plena humanidade do Redentor foi, e continua sendo, um assunto teológico de grande controvérsia.

Desde cedo houve oposição à crença da plena humanidade do Filho de Deus. Um exemplo clássico dessa oposição foi o docetismo [1] uma heresia do final do primeiro século que ensinava que o corpo de Jesus era apenas uma aparência. Uma de suas afirmações clássicas era que, quando Jesus caminhava na praia, ele não deixava pegadas.  

O Catecismo Maior de Westminster [2], no entanto, em sua resposta à pergunta 37 “Sendo Cristo o Filho de Deus, como se fez homem?” estabelece o seguinte:

Cristo, o Filho de Deus, fez-se homem tomando para si um verdadeiro corpo e uma alma racional sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, da sua substância e nascido dela, mas sem pecado.  João 1:14; Mateus 26:38; Lucas 1:31, 35-42; Hebreus 4:15, e 7:26.

Conforme se conclui do referido documento, essa verdadeira substância humana, derivada de Maria, possuía dois elementos: verdadeiro corpo (elemento material) e verdadeira alma racional (elemento imaterial).

Cremos, portanto, que o Filho de Deus, nosso Redentor era plenamente humano, pelas evidências que apresentamos a seguir.

I – ELE POSSUÍA CORPO VERDADEIRO

Conforme vimos anteriormente, nos tempos dos apóstolos o docetismo afirmava que o corpo de Cristo era apenas uma aparência, não era palpável, tinha tão somente a semelhança de carne, e nada mais.

Porém, o apóstolo João defendeu a verdadeira humanidade do Filho de Deus quando afirmou que Seu corpo era uma realidade palpável, e não um fantasma, conforme se evidencia da passagem de 1 João 1.1: “que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida”.

Nesse trecho, o apóstolo João enfatiza que o Verbo da Vida, o que havia se encarnado era um homem tão real que poderia ser percebido pelos sentidos físicos.  O Dr. Heber Carlos Campos [3] nos ajuda a entender esse fato quando declara:

Ele (Jesus Cristo) poderia ser ouvido, porque falava em palavras audíveis; e a vibração do som provocado por suas cordas vocais podia ser percebida por meio dos sentidos; a sua corporeidade podia ser claramente deduzida do fato de poder ser visto com os próprios olhos de João (…) Disse ainda que o havia apalpado com as próprias mãos. Não se apalpa um espirito ou fantasma, mas algo que possui corporeidade ou fisicalidade.

Além do apóstolo João, Paulo defendeu a humanidade de Jesus em Colossenses 2.9 “portanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade”. Embora a finalidade da passagem seja demonstrar a divindade de Jesus Cristo, não se pode negar que a mesma também indica traços da natureza física do nosso Salvador. Combatendo algumas concepções docéticas, Lutero defendia a plena humanidade de Cristo quando declarou que “(…) ele (Jesus Cristo) viveu entre homens. Ele tinha olhos, boca, nariz, caixa toráxica, estomago, mãos e pés, exatamente como você e eu temos. Sua mãe o amamentou como qualquer outra criança é amamentada”. [4]

Ademais, o próprio Redentor defendeu ter verdadeiro corpo. Após sua ressurreição, alguns de seus discípulos começaram a duvidar de que ele estivesse ali presente em carne e osso. Então, o Senhor falando sobre sua humanidade corpórea disse:

Lucas 24.39-43 – Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.  41 E, por não acreditarem eles ainda, por causa da alegria, e estando admirados, Jesus lhes disse: Tendes aqui alguma coisa que comer?  42 Então, lhe apresentaram um pedaço de peixe assado e um favo de mel.  43 E ele comeu na presença deles.

Contudo, mesmo diante de evidências como essas, comumente, enfatizamos mais o Cristo divino, e acabamos por obscurecer a humanidade do nosso Redentor. É pertinente, nesse ponto, ouvirmos as palavras Louis Berkhof [5], um renomado teólogo reformado, quando nos alerta para o seguinte:

É muito importante afirmar a realidade e a integridade da humanidade de Jesus, admitindo o Seu desenvolvimento humano e as Suas limitações humanas. Não se deve salientar o esplendor da Sua divindade a ponto de obscurecer a Sua verdadeira humanidade. Jesus chamou-se homem a Si próprio, e assim foi chamado por outros, João 8.40; Atos 2.22; Romanos 5.15; 1 Coríntios 15.21. A mais comum forma de auto-tratamento de Jesus, “o Filho do homem”, seja qual for a conotação que tenha, por certo indica também a verdadeira humanidade de Jesus.

II – ELE POSSUÍA ALMA RACIONAL

A alma é parte imaterial da composição humana, assim como o corpo é a sua parte material. Corpo e alma são elementos necessários para tornarem o homem o ser que ele é, desta maneira era essencial que o Mediador tivesse a natureza completa [6].

Surgiu desde cedo, na igreja cristã, quem negasse que o nosso Salvador possuía alma humana. Apolinário foi um exemplo disso. [7] Contra os ensinos de Apolinário, o Credo de Calcedônia estabeleceu que Jesus Cristo era “verdadeiro homem, consistindo de uma alma racional e um corpo”. Foi com base na Escritura  que os pais apostólicos concluíram que Jesus possuía alma humana ou espirito.

Por exemplo: antes de sua crucificação, ele declarou: “a minha alma está angustiada até a morte” João 12.27. Pouco depois, ele escreve: “ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espirito” João 13. 21.

Além do mais, Cristo possuía uma mente humana, sujeita às mesmas percepções e desenvolvimento que as mentes dos outros homens possuem. Sua mente possuía percepção, lógica, desenvolvimento de ideias e assimilação de conceitos e informações. O menino Jesus Cristo crescia em estatura e em sabedoria. Ele era um menino ativo e observava todas as coisas, tirando lições delas [8], conforme se verifica em Lucas 2.52 – “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens.”.

 Grudem [9] também nos auxilia aqui, quando ele declara:

O fato de que Jesus “crescia em sabedoria” (Lucas 2:52) nos diz que passou por um processo de aprendizado assim como acontece com todas as outras  crianças. Ele aprendeu a comer, falar, ler e escrever, e a ser obediente aos seus pais (veja Hebreus 5:8). Esse processo de aprendizado fazia parte da genuína humanidade de Cristo.

A única diferença, certamente, é que a mente do Filho de Deus não havia recebido os efeitos decadentes do pecado, porque sua alma era santa, Hebreus 4.15.

III – ELE POSSUÍA EMOÇOES HUMANAS

Sabemos claramente que as emoções são características dos seres racionais, sejam eles homens, anjos, ou o próprio Deus. Jesus Cristo, em sua natureza humana demonstrou emoções como homem normal:

A. Ele demonstrou alegria – “Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças de dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.” Lucas 10.21.

É certo que Jesus Cristo foi “homem de dores e que sabe o que é padecer” (Isaías 53.3). Por causa disso, algumas pessoas podem pensar que a vida de Jesus era só de tristeza. Mas isso não é verdade.  Lucas 10.21 é um exemplo disso.

B. Ele demonstrou tristeza –  João 11.33-35 – “Jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se (…) Jesus chorou.” 

Este é um dos capítulos mais tocantes que tratam das emoções de nosso Redentor. Essas emoções são próprias e exclusivas de seres humanos. Sabemos que a divindade não tem sentimentos como os nossos. Porém, vemos que o texto fala que Jesus Cristo “agitou-se no espírito e comoveu-se”.  Esta é uma demonstração de sentimentos. Ele amava aquela família que perdera um ente querido. Vendo Maria chorar, Jesus não se conteve e chorou também. Ele não pode evitar essa comoção interior. Esse tipo de emoção torna o Salvador bem próximo de nós, e revela de maneira muitíssimo clara a sua verdadeira humanidade.

IV – ELE POSSUÍA LIMITAÇÕES HUMANAS

Há várias circunstâncias mencionadas na Escritura que apontam para as limitações de nosso Redentor, quando o olhamos pela ótica de sua humanidade.

A) Vemos que Ele se cansava: João 4.6 – “Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta.”

B) Vemos que Ele tinha sede: João 4.7 – “Nisto veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber.”.

A sede é o resultado natural do cansaço, do esforço físico e da sequidão da garganta quando se viaja a pé por estradas poeirentas.

C) Vemos que Ele tinha fome: Mateus 4.2 – “E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”.

A fome é um sintoma do organismo humano que aponta para a necessidade de comer para que possa sobreviver.

APLICAÇÃO

O fato de nosso Senhor ter um corpo como o nosso, já nos torna parecidos com ele, e isso nos consola e nos conforta.

Quando sofremos enfermidades em nosso corpo ou angustias em nossa alma, temos alguém que nos consola e conforta, pois ele também experimentou isso. Talvez você esteja triste por alguma coisa que tem roubado sua alegria, mas anime-se, nosso Senhor demonstrou que é possível sorrir mesmo quando a cruz é pesada.

O fato de ter Ele uma alma como a nossa, mas livre de todas as imperfeições, nos anima e nos alegra pela esperança da promessa de que um dia teremos uma alma perfeita como a dele.

CONCLUSÃO

Portanto, cremos que o nosso Redentor era um homem real, não apenas uma aparência de homem. A encarnação lhe trouxe um corpo real, o que não somente podia ser visto e ouvido, mas também tocado, o que veio ser passível de sofrimento, morte e ressurreição.

REFERÊNCIAS

[1] do verbo grego dokeō, “aparentar, parecer-se com.

[2] Catecismo Maior de Westminster foi um dos símbolos de fé produzidos pelos puritanos do século XVII, em Westminster, Inglaterra, entre os anos de 1644-1648.
[3] CAMPOS, Heber Carlos de, A Pessoa de Cristo – As duas naturezas do Redentor. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p.387

[4] Luther’s Works, vol.22. Sermons on the Gospel of John (Saint Louis: Missouri, Concordia 1957) citado por Heber Carlos Campos A Pessoa de Cristo – As duas naturezas do Redentor. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p.387.

[5] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática.2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 292;

[6] Ibid, p. 387

[7] Apolinário nasceu em Laodicéia da Síria e ali se tornou bispo por volta de 361. Era docético em sua cristologia, negando a plenitude da humanidade de Cristo por causa do seu conceito da composição tripartite da natureza humana. Para um estudo mais aprofundado do assunto;
[8] Ibid,  p. 387

[9] GRUDEM, Wayne. A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 438.

Pr. Ronaldo Pereira Costa

Pastor da Primeira Igreja Cristã Evangélica de Presidente Dutra – MA. Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico do Nordeste – STNe. Especialista em Aconselhamento Bíblico pelo Seminário Cristão Evangélico do Norte – SCEN. Mestre em Divindade com concentração em Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper. Bacharel em Direito pelo Centro de Ensino Unificado de Teresina -CEUT. Especialista em Direito Civil e Processo Civil pela mesma instituição. Advogado militante desde 2013, OAB/PI. Casado com Natielly, pai de Isabelly, Débora, Luis Antônio, Ronaldo Junior e Elisa.

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