AS AFLIÇÕES E SEUS APRENDIZADOS
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AS AFLIÇÕES E SEUS APRENDIZADOS:
O sofrimento visto pela ótica das Escrituras

Introdução

O sofrimento e suas aflições decorrentes são certamente temas que permeiam as Escrituras. Em todo o cânon, apenas poucos capítulos foram dedicados para apresentar um mundo livre de sua presença. Tais capítulos podem ser contemplados na origem das coisas, no livro dos Gênesis, apenas em seus dois primeiros capítulos, onde e quando o mundo fora criado ainda incontaminado com o pecado e na consumação da história quando livres da presença, maldição e condenação do pecado estaremos eternamente desfrutando da alegria eterna da redenção em Cristo.

Então, com o pecado original e sua consequência direta – a corrupção da criação e a morte como seu pagamento – o restante da trama bíblica em seus 66 livros, apresenta o sofrimento como uma realidade presente que será resolvido apenas na ocasião da parousia e no cumprimento da promessa do novo céu e nova terra como realidade presente entre os eleitos de Deus.

Por ser um tema recorrente não se pode ignorar a presença do sofrimento e suas manifestações em múltiplas facetas, que, independente da forma manifesta causa sempre desconforto, dor e necessita de respostas que tragam um porquê e também uma solução para o árido momento vivido por aqueles que sofrem. Quer seja na esfera individual, como por exemplo, a perda de um emprego ou a não conquista de um tão sonhado objetivo, ou na esfera coletiva, um desastre natural que tira a vida de famílias e comunidades inteiras, o sofrimento exige do ser humano algo que traga sentido e novos rumos e, a partir daí, se reinterpretar, reestabelecer, recomeçar e continuar.

Sofrimento, dor e suas aflições então fazem parte da natureza humana caída desde a expulsão do Éden e, enquanto viver no habitat corrompido pelo pecado o ser humano certamente sofrerá por dentro – doenças, traumas, perdas; por fora – relacionamentos destruídos, desconfianças, traições, ilusões; apesar de si– enchentes, terremotos, furações, tsunamis; e espiritualmente – opressões, possessões, divisões, fanatismos. As aflições e sofrimentos estão impregnados na humanidade e não há como ser diferente.

O presente artigo tem por finalidade principal observar biblicamente o sofrimento e as aflições e extrair das Escrituras uma forma de enfrenta-lo que sirva de crescimento espiritual e aponte para a glória de Deus, apesar e acima da dor.

Porque existe sofrimento e aflição?

Um pai que sepulta um filho vítima de um assassinato cruel, um marido que assiste de forma impotente o câncer devastar e consumir a vitalidade de sua amada esposa, uma criança inconsolável ao saber que seu pai fora preso por tráfico de drogas ou um vírus que está dizimando famílias inteiras. Tais cenários são extraídos da vida real e mostram como a realidade presente manifesta nefastos teores de um mundo submerso em sofrimento. Tais coisas não deveriam existir, não deveriam ser vividas por aqueles que são biblicamente considerados como coroa da criação de Deus, mas infelizmente existem e são presentes em muitas realidades. Uma pergunta então que requer uma resposta direta inevitavelmente é: Porque existe o sofrimento? Porque o ser humano prova o dessabor de uma vida cheia de aflições nas mais distintas áreas e situações?

Responder biblicamente a essas perguntas pode ser parte importante da construção de uma mentalidade teológica sobre o sofrimento e certamente há o interesse da Escritura em uma resposta direta que norteie o aflito a demonstre soberania, graça e propósito divino. De forma direta, objetiva e clara a Bíblia vai dizer que existe o sofrimento e suas aflições porque existe o pecado.

O teólogo neocalvinista holandês Herman Bavinck apontando a razão pela qual a humanidade vive em meio a dor e o sofrimento afirmou:

Todo sofrimento que atinge as pessoas sobre a terra – uma vida curta, uma morte repentina e violenta, fome, pragas, guerras, frustrações, esterilidade, perdas dolorosas, privações dos bens, empobrecimento, perda da colheita, morte do rebanho, e assim por diante – tem sua raiz no pecado, na verdade, nem sempre em pecados pessoais […], mas no pecado em geral. Sem o pecado não haveria sofrimento.[2]

No final do capítulo 1 de Gênesis há o relato da perfeita criação de Deus e de sua total aprovação com tudo o criado. Havia harmonia, ordem estabelecida, funcionalidade perfeita e beleza em tudo que existia. Conforme Sua vontade tudo se fez e nesse ambiente perfeito o criador coloca o homem para viver uma vida de relacionamento íntimo, de trabalho e de discipulado com o seu criador. O homem fora criado perfeito, em um ambiente perfeito para se relacionar com um Deus perfeito. “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom.” (Gn 1.31). Mas, desde a manifestação do primeiro ato de rebeldia contra Deus a humanidade tem provado o amargo sabor de sua escolha. Quando pecou, a raça humana trouxe sobre si a realidade da morte em seus mais amplos sentidos teológicos para a existência. O pecado trouxe sofrimento não apenas para a descendência adâmica, mas para todo o domínio pelo qual ele estava responsável assim como a criação envolvida no relacionamento pactual federativo representado por ele.

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também passou a todos os homens, porque todos pecaram.” Rm 5.12

O processo de morrer pode aqui ter implicações também filosóficas tanto quanto teológicas, pois mesmo gozando de plena vivacidade, a cada minuto que passa o ser humano está morrendo e carregando consigo toda a dor de morrer dia após dia. Fora do Éden a criação morre desde o nascer.

Agora, o ser que fora criado para viver no paraíso desfrutando do relacionamento com seu criador vive uma existência degradante e degenerativa. A morte passou a ser o fim de todos os homens, mas cedo ou mais tarde todos se encontrarão com ela. Não bastasse esta verdade, e ainda citando o episódio da queda, há também a maldição divina sobre a existência da natureza corrompida pelo pecado. As relações interpessoais são agora ofensivas e maltratantes, o relacionamento com o meio ambiente é hostil, o relacionamento com o corpo é destrutivo e impossibilitados de reconciliação por seus próprios atos com seu criador. “… Maldita é a terra por tua causa…” (Gn 3.17). Com a entrada do pecado o sofrimento vem por consequência, faz-se presente enquanto esta natureza não for redimida e é uma das marcas de um mundo decaído. Não há nada fora do Éden que esteja isento da maldição do pecado e de todo o sofrimento que ele trouxe para a humanidade. “O salário do pecado é a morte.” (Rm 6.23)

Como encarar o sofrimento biblicamente?

Entretanto, diante da realidade universal do pecado e do sofrimento que ele trouxe para a humanidade como devem se portar aqueles que querem extrair do sofrimento uma forma que aponte para a glória de Deus? Existe alguma possiblidade de fazer com que o sofrimento seja um aprendizado que reconfigure seu significado para muito mais do que dor e tristeza?

Há no livro de Gênesis a conhecida história de José (Gn 37-50). Diante de um enredo que envolvia maus-tratos e manifestações públicas de ódio (Gn. 37:4), ciúmes (37.11) e maquinações contra sua vida com requintes de crueldade (37.18ss), abandono e tortura (37.23-24), tráfico humano (37.28), mentiras e sofrimentos (37.33,35), tentações (39.7), prisão injusta (39.20), desprezo (40.23) e tantas outras coisas que não foram relatadas no livro certamente José sabia o que era uma vida de sofrimentos. Ele não era amado por seus irmãos, não tinha amigos, foi tornado escravo, sofreu uma prisão injusta, mas ainda assim quando ele compreende um conceito maior do que sua própria história de vida todo o sofrimento vivido ganhou novos contornos e propósito.

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. (Gn 50.20)

Qual o segredo para que José pudesse chegar a uma conclusão assim? O foco do sofrimento precisa ser tirado de quem sofre e colocado sobre aquele que rege todas as coisas de acordo com sua soberana vontade.

O pastor J.I. Packer certa vez alertou seus ouvintes sobre a seriedade do conhecimento de Deus diante do sofrimento. Ele, ciente da importância do foco correto no processo do sofrimento escreveu aos seus leitores sobre o perigo deste deslocamento de horizonte. “Despreze o estudo de Deus e você estará sentenciando a si mesmo a passar a vida aos tropeções, como um cego, como se não tivesse qualquer senso de direção e não entendesse aquilo que o rodeia.”[3]

Mesmo nos momentos de sofrimento e aflição, as lembranças e memórias sobre o Deus de seus pais fazia de José alguém que confiava que tudo em sua vida estava sob o controle divino. Havia um propósito maior e ele fazia parte disso, portanto, ao invés de se entregar a um comportamento pessimista quanto ao que sofria, ou viver seus dias mergulhado no sofrer e em suas aflições José passava pelos momentos crendo que Deus estava conduzindo e sustentando seu caminhar. O apóstolo Pedro em sua segunda carta escreve aos seus leitores sobre a forma bíblica dos cristãos enfrentarem todas as coisas, inclusive os sofrimentos e aflições desta vida. Ele diz:

Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou para sua própria glória e virtude. (2Pe 1.3)

Todas as coisas, inclusive os sofrimentos em suas multifacetadas formas são possibilidades ofertadas por Deus para que seus filhos sejam aperfeiçoados e conduzidos a uma vida de piedade e crescimento espiritual. Longe de achar que o sofrimento é sinônimo de inércia ou de abandono divino, o cristão deve entender que Deus certamente está garantindo que sua vontade seja exercida e tudo está conforme seu poder.

Outro personagem que pode contribuir para uma forma de encarar o sofrimento biblicamente é Jó. Sua famosa história, relatada no livro que leva seu nome apresenta uma forma de sofrimento provada por uma minoria neste mundo. De homem próspero, íntegro, temente a Deus, feliz, respeitado entre os vizinhos, exemplo de pai e sacerdote (Jó 1.1-5; Jó 29) ele viu sua vida ruir de forma repentina e sem justa causa. Enquanto a trama acontece nas regiões espirituais (Jó 1.6-12), Jó em terra só prova do amargo sabor das tragédias que atacam tudo que estava relacionado a ele. Seus filhos morreram de forma trágica, seu patrimônio foi devastado, sua reputação fora ofendida e seus amigos não acreditavam em sua inocência. Jó sofreu em seu corpo e mente duras aflições, mas três versículos chamam a atenção sobre como este homem reage em meio ao sofrimento:

Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça e lançou-se em terra e adorou […] o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor! Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma. (Jó 1.20-22)

Ao longo de seu sofrimento Jó, embora desgastado por tamanhas catástrofes e dores, preferiu confiar em Deus e descansar em sua soberania pois reconhecia o tamanho e a magnitude daquele que criou todas as coisas. Jó confiava que Deus era senhor em todas as coisas inclusive nas perdas de sua vida e embora tentado a questionar o porquê de estar vivendo aqueles dias maus ele encontra no governo de Deus uma forma segura de saber que a vontade de Deus está acima da compreensão humana e que é mais sábio e seguro confiar naquele que administra toda a criação. (Jó 39-41).

Sua confissão final torna-se um bom indicativo sobre a forma como o cristão deve encarar o sofrimento.

Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. (Jó 42.2)

Em vez de empenhar tempo ensinando o cristão sobre como identificar as causas do sofrimento, a Escritura nos dirige ao Deus que sabe de todas as coisas e que é plenamente confiável. Em outras palavras, a Escritura não nos dá conhecimento para que tenhamos domínio intelectual de certos acontecimentos; dá-nos conhecimento para que nos acheguemos a Deus com toda confiança. A resposta para o problema do sofrimento está em, de algum modo, voltarmos para Deus e confiarmos nele quanto aos mistérios do sofrimento.

Aprendendo com as aflições

Uma vez percebida a universalidade e a realidade do sofrimento e suas aflições como consequências da maldição do pecado na humanidade deriva-se um caminho duplo de compreensão e aprendizado.

Ou Deus não consegue administrar o ritmo da vida de sua criação e suas demandas e vai, portanto, ser ineficiente em preservar os que são seus de sofrer – teoria defendida de forma mais abrangente pelo teísmo aberto; ou Deus, como bom administrador de todas as coisas apesar do sofrimento causado pelo pecado na humanidade é soberano a ponto de que todas as coisas, inclusive o sofrer redunde para seus propósitos e sua glória. A forma escolhida para encarar o problema do sofrimento apontará para o aprendizado final.

No Salmo 119:71 encontra-se uma aplicação de como a forma certa de ver o sofrimento desemboca em um aprendizado que glorifica a Deus e o exalta. “Foi-me bom eu ter passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos.”

Nesse verso existem importantes conceitos derivados da forma correta de sofrer e passar por aflições. O salmista, dada uma experiência certamente difícil chega a uma conclusão que pode assim ser apresentada:

1.   Passar pelo sofrimento revela ao homem o estrago que o pecado trouxe à criação.

Com toda a experiência de destruição e sofrimento que marcam a história da humanidade é inevitável perceber que algo está errado, que alguma coisa está aquém do que deveria ser e o sofrimento mostra a limitação e a fragilidade em que a vida humana está fundamentada. Quando alguém próximo sofre, ou quando o sofrimento cai sobre si essa é uma oportunidade de reflexão sobre quão corrupta e corrompida está a criação ao nosso redor e necessita urgentemente de um reparo, um conserto, uma redenção.

2.   O sofrimento faz o sofredor a buscar forças em quem o pode livrar de todo o sofrimento

Entregue ao sofrimento e suas aflições é impossível que muitos tenham forças e formas de superar o que tem vivido. Quando mergulhado em dor e sofrimento o ser humano tem a possiblidade de ver que a força de seus braços, sua conta bancária, seu sobrenome ou status não podem ajudar quando ele enfrente o maior de seus medos. Nessa hora, buscar ajuda naquele que pode todas as coisas e que tem tudo debaixo de sua autoridade é uma forma saudável de passar pelo vale da sombra da morte. O salmista entende que no sofrimento o homem olha para sua insignificância e para a grandeza de Deus e tem ali uma possibilidade segura de descansar nos braços do Todo-poderoso.

3.   O sofrimento faz o homem desejar a realidade redimida de todas as coisas.

O mais desejado para quem sofre é certamente o fim do sofrimento. Na doença, o alvo é a cura, na dor, o alvo é o alívio. Enquanto raça humana e criação contaminada pela maldição do pecado a solução para o fim do sofrimento é a redenção da criação. O mundo apenas estará livre do sofrimento quando a consumação do plano de redenção divina for cumprida cabalmente, quando novos céus e nova terra forem reestabelecidos e será lá onde finalmente não haverá mais dor ou sofrimento. As aflições e sofrimentos terão dia e hora para acabar e desfrutará dessa nova realidade todos aqueles que foram chamados por Deus.

O salmista reflete estas coisas a partir da experiência do sofrer. Ao invés de entregar-se ao sofrimento e fazer dele uma oportunidade para ofender a Deus e sua soberania ele aproveitou para refletir em tais aspectos. Ao ver o sofrimento ele sentiu o pesar pelo pecado e seu estrago na humanidade. Ao sofrer ele se viu impossibilitado de resolver as coisas por seus próprios meios e com o sofrimento seu anseio por redenção se tornou mais fervoroso, mais piedoso. O sofrimento aqui aponta para a glória de Deus.

Considerações Finais

A existência humana pós-queda tem sido marcada pela dor e pelo sofrimento. O homem, agora errante e expulso do jardim caminha em meio às aflições de uma vida distante de seu propósito original. Enquanto criatura, sofre por ter deliberadamente ofendido a seu criador e agora paga o preço pela desobediência. O sofrimento é análogo à natureza pecaminosa.

Mesmo assim, em Deus há uma grande manifestação de justiça e graça em ofertar àqueles que Ele soberanamente escolheu uma vida eterna longe de toda dor e sofrimento, sendo resgatados pelo sacrifício substitutivo e propiciatório de Jesus. Enquanto aguardam a consumação – a transformação redentiva de tudo o que existe – mesmo os eleitos sofrem por seus pecados e pelos pecados dos outros, mas há aqui uma possibilidade de olhar acima do mar bravio das circunstâncias e enxergar o Senhor que governa todas as coisas de forma perfeita e justa. No sofrimento, o redimido tem oportunidade de testar sua confiança, os pilares de sua fé, sua certeza de salvação e seu amor àquele que o resgatou.

O sofrimento longe de ser um jeito sádico de Deus se relacionar com os homens é uma oportunidade de confiar inteiramente nele e descansar em seus eternos propósitos. Se a fé diz que Ele é o bom pastor suas ovelhas devem crer e confiar em seu pastoreio.

Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Rm 8.28)

Referências

[1] BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada – o pecado e a salvação em Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.p.180.
[2] PACKER, J.I. O Conhecimento de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.p.19.

Pr. Madson Costa Oliveira

Pastor da Igreja Cristã Evangélica no Cohatrac. Especialista em Teologia Bíblica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Mestre em Ministério com ênfase em Aconselhamento Bíblico pelo SCEN. Doutorando em Ministério Pastoral pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. Casado com Meriellie Brandão, pai de Alice e Théo.

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