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OS GNÓSTICOS E O APÓSTOLO JOÃO
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OS GNÓSTICOS E O APÓSTOLO JOÃO

1.    INTRODUÇÃO

Com base em evidências internas encontradas em várias epístolas do Novo Testamento e nas informações oriundas dos pais apostólicos, estudiosos revelam que uma heresia conhecida como gnosticismo perturbou os cristãos nos primeiros séculos da igreja.  Alguns chegam a afirmar que pelo menos oito livros do Novo Testamento foram escritos para preservação do corpo de doutrinas cristãs, em frente aos ataques do protognosticismo. Entre os livros apresentados encontram-se as três cartas de João, as pastorais e a carta de Judas.

Para estudiosos como Roger Olson, John Stott, Augustus Nicodemus Lopes, Radmacher, B. Allen, Wayne House, entre outros, é praticamente certo que o apóstolo João já combatia um gnosticismo embrionário defendido e propagado por muitos falsos mestres nas congregações cristãs do primeiro século. Essa verdade é perfeitamente verificável pelo conteúdo inspirado da primeira carta de João, bem como pelo testemunho de documentos antigos e extra bíblicos. Ao escrever a primeira carta, o apóstolo João tinha o propósito de combater os falsos mestres que assediavam as igrejas que estavam sob seus cuidados, bem como fortalecer os verdadeiros crentes no ensino dos apóstolos.     

Não se sabe ao certo como o gnosticismo surgiu nas comunidades cristãs, porém, sabe-se que os gnósticos foram os maiores inimigos dos crentes primitivos. Eruditos chegam a dizer que a maior ameaça contra a igreja nos primeiros séculos não foi o Império Romano, mas um inimigo “espiritual” conhecido como gnosticismo. Eles consideravam-se cristãos ao mesmo tempo em que proclamavam um evangelho estranho e diferente do ensino apostólico, pois misturavam judaísmo, filosofia grega, conteúdo das religiões de mistérios e fé cristã.  

Conhecer um pouco mais sobre esse assunto é importante não só para uma melhor compreensão de algumas cartas do Novo Testamento, mas também para identificarmos os nocivos tentáculos dessa heresia que continua assediando os cristãos em todo o mundo. Contudo, não se objetiva ser exaustivo sobre o assunto, nem mesmo abordar todas as novas roupas gnósticas usadas no presente. A proposta é apresentar algumas das principais características que identificam esse movimento herético, mostrar alguns argumentos que João levantou contra esses falsos mestres, e por fim, pautar a relevância atual do assunto.

2.     O GNOSTICISMO

2.1 A doutrina     

Os gnósticos não tinham um sistema doutrinário único, pelo contrário, divergiam entre si em relação a muitos pontos. Logo, o termo gnosticismo é compreendido como um rótulo geral que se aplicava a vários mestres e escolas nos primeiros séculos da igreja. Olson, (2009, p.27) afirma: “O gnosticismo é um rótulo genérico aplicado a uma grande variedade de mestres e escolas cristãs que existiam às margens da igreja primitiva […]”.

2.2 O Ser divino e a criação do mundo físico  

A maioria dos gnósticos afirmava a existência de um Ser Supremo e eterno do qual emanara outros seres espirituais conhecidos como éons. A finalidade da existência dos éons era oferecer louvores ao Abismo ou Supremo. Todavia, um éon se distanciou tanto deste Ser, que como consequência cometeu um grave erro, criou o mundo material.

Portanto, pelo fato do mundo físico não proceder da vontade do Supremo mas de um erro, é inevitavelmente considerado mau. Stott, (2011, p.40) observa:                                                                     “[…] Os gnósticos afirmavam que houve uma série de ‘eons’ ou emanações do Supremo, cada qual mais distante dele do que as suas predecessoras, até que uma delas emergiu suficientemente longe para criar o mundo material.” Adiciona-se a isso a fala de González, (2011, p.42):

[…] Esse princípio primeiro, que alguns chamavam de o Abismo, existe desde sempre, e dele surgiram outros seres espirituais que os gnósticos chamavam éons. O propósito dos éons era glorificar o Abismo. Mas um deles, seja por engano ou de propósito, deu origem a este mundo material. […] a realidade material, em razão de proceder de um erro por parte de um éon, é má. […].

Nesse ponto é importante distinguir o pensamento do herege Marcião do que fora exposto acima. Mesmo havendo algumas semelhanças entre suas doutrinas e as dos gnósticos, no entanto, Marcião não concebia a ideia de uma fileira de “éons”. Ele entendia que o Deus revelado no Antigo Testamento era o criador deste mundo físico e mau. Para esse herege, foi esse ser maligno que aprisionou a humanidade no planeta terra.

Acreditava, ainda, que acima de tudo encontrava-se o soberano todo benevolente e Pai de Jesus Cristo, o qual enviou seu filho amado para salvar os perdidos habitantes deste mundo de trevas. Logo, Marcião fazia uma clara distinção entre o deus inferior do Antigo Testamento, e o Deus grandioso e amoroso revelado na face de Cristo Jesus.       

2.3 O espírito do homem

Os gnósticos acreditavam que o espírito do homem era uma partícula do Ser Supremo que se desprendera e que de alguma forma caiu e se aprisionou no corpo. Assim sendo, o espírito é essencialmente divino e bom, pois é parte de “Deus”, enquanto o corpo por ser matéria proveniente de um erro, é totalmente mau. Essa doutrina é conhecida como dualismo, ou seja, a ideia de que o espírito é bom e a matéria má. Olson, (2009, p.37) aborda o assunto com clareza:

[…] Em resumo, acreditavam ser a matéria, incluindo o corpo, uma prisão inerentemente limitante ou até mesmo um obstáculo maligno para a boa alma ou espírito do ser humano e que o espírito, essencialmente divino, uma “centelha de Deus”, habitava o túmulo do corpo. […].

2.4 A salvação e o conhecimento superior

Os mestres gnósticos propagavam que a salvação implicava na libertação do espírito do cárcere corporal e no seu retorno ao Supremo. Entretanto, isso só era possível através de um conhecimento superior que não estava ao alcance de todos, mas pertencia somente aos iniciados no sistema gnóstico. Nicodemus Lopes, (2005, p.12) aborda: “[…] De acordo com o gnosticismo, a salvação consiste em a alma fugir da prisão que é o corpo, e isso se consegue por meio de um conhecimento secreto e especial. […]”.

É possível dizer que o conhecimento superior propagado pelos gnósticos consistia em pelo menos, duas convicções básicas, a saber: (1) admitir que o espírito humano é uma partícula do Ser Supremo que se encontra aprisionada no corpo; (2) Reconhecer Cristo como ser espiritual que fora enviado pelo desconhecido Pai para buscar suas partículas que foram espalhadas e presas em corpos físicos. Os cristãos comuns não tinham esse conhecimento elevado acerca da gnose e de Cristo, mas somente os iniciados no sistema. Ressalta-se que, para os gnósticos o resgate efetuado por Cristo não era do tipo expiatório, substitutivo, como pregavam os apóstolos. Certamente a cristologia apostólica era bem diferente.

2.5 A encarnação de Cristo

Embora os primeiros gnósticos concordassem no que diz respeito ao dualismo grego e a superioridade do conhecimento, no entanto, divergiam entre si quanto a encarnação de Cristo. Os gnósticos não acreditavam na possibilidade de Deus assumir um corpo humano ou físico. Por conseguinte, respondiam de duas formas diferentes ao mistério da encarnação, isto é, enquanto alguns negavam a divindade do Filho de Deus, outros negavam a sua humanidade.

No afã de preservar a não contaminação do espírito pelo corpo, alguns gnósticos ensinavam que o Cristo divino (ser espiritual) apenas simulou uma humanidade, como nas teofanias do Antigo Testamento. Essa visão da pessoa de Jesus ficou conhecida como “docetismo”, palavra grega que significa “parecer”, e aponta para a ideia de que o corpo de Jesus foi apenas aparente e não uma realidade concreta. Essa concepção negava a humanidade de Cristo.

Por outro lado, ainda mantendo a dicotomia entre o material e o espiritual, outros gnósticos propagavam que o Cristo divino teria apenas usado um homem de carne e ossos, chamado de Jesus. O mestre Cerinto, contemporâneo e adversário do apóstolo João foi um defensor vigoroso desse entendimento. Notemos que Cerinto não negava a realidade do corpo do homem Jesus, mas a possibilidade do Cristo divino (um “aeon”) assumir uma natureza humana, ou seja, a união do “aeon” com o homem de Nazaré. A consequência deste raciocínio era a total negação da divindade de Jesus.

2.6 A moralidade

A visão dualista dos gnósticos resultou em uma divisão doutrinária no campo da moralidade. Para alguns era preciso disciplinar o corpo afastando-o de tudo que fosse deste mundo. Negar ao corpo material (que é mau) os prazeres dessa vida era uma maneira de puni-lo, e, portanto, uma forma de agradar a Deus. Por conseguinte, esses gnósticos trilhavam o caminho do ascetismo. Nesse caso, as leis do Antigo Testamento se mostravam bastante proveitosas.   

Diferentemente, por acreditarem que as práticas do corpo não podiam atingir o espírito iluminado, outros gnósticos adotaram uma postura de indiferença quanto a correta conduta moral. Em outras palavras, acreditavam que é perfeitamente possível para o homem ter o espirito regenerado e ao mesmo tempo viver na prática do pecado por meio do corpo. Radmacher, B. Allen, Wayne House, (2010, p.551) comentam: “[…] Para esse tipo de gnóstico, uma vez que o corpo era mau e o espírito era bom, nada que fosse feito pelo corpo poderia prejudicar o espírito. […]”. É contra esta última tendência moral que João se manifesta na sua primeira epístola.

2.7 Os Hílicos, os psíquicos e os pneumáticos

Os falsos mestres gnósticos faziam uma distinção entre os homens ao ponto de elevarem alguns em detrimento de outros. A divisão se deu da seguinte maneira: os hílicos, os psíquicos e os pneumáticos. Enquanto os hílicos e os psíquicos foram inferiorizados, os pneumáticos foram tidos como os verdadeiros espirituais.  Para esses embusteiros, somente os pneumáticos haviam alcançado a plena salvação.  Frans Leonard Schalkwijk, (apud Nicodemus Lopes, 2005, p.21) explica:

[…] Mas há grandes diferenças entre os homens. Basicamente, há três degraus entre eles: há os “hílicos” (hulê), que são puros materialistas e não progrediram em nada; há os “psíquicos” (psychê), que já subiram um degrau; e finalmente, há os “pneumáticos” (pneuma), que alcançaram a salvação.

Vale ainda salientar que os pneumáticos acreditavam que eram “justos”, mesmo vivendo na prática do pecado. Stott, (2011, p.41) alude ao assunto usando as seguintes palavras: “[…] Esses pneumatikoi tinham também a pretensão de que eram dikaioi, “justos”, independentemente da sua conduta.”.

2.8 Ação social

Como consequência da indiferença em relação as coisas materiais, os mestres gnósticos terminavam por desprezar o corpo de uma maneira bem peculiar, resultando em atitudes de desprezo ao sofrimento alheio. João sabia que esta visão dualista levava a uma postura de indiferença para com as necessidades físicas do próximo. O apóstolo rebate esta ideia dizendo: “[…] Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? […]” (1 João 3.17).

3.    A RESPOSTA DO APÓSTOLO JOÃO AO GNOSTICISMO

Desse ponto em diante, o objetivo não é refutar todos os falsos ensinos gnósticos mencionados acima, mas apresentar algumas respostas que João levantou contra alguns dos principais pilares dessa heresia perniciosa.

3.1 Resposta ao indiferentismo moral

Como exposto antes, muitos gnósticos que assediavam a igreja primitiva eram indiferentes quanto a moralidade, pois entendiam que a prática do pecado era inofensiva ao espírito humano. Esses falsos mestres aos quais João confrontava, proclamavam um novo nascimento espiritual e a continuação de uma velha vida carnal. Contra essa heresia, o apóstolo declara de forma devastadora a incompatibilidade de uma suposta comunhão com Deus destituída de uma conduta apropriada. Nas palavras do próprio apóstolo:

Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma.  Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade.  Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. […] (1 João 1:5-7).

O dualismo dos itinerantes gnósticos entre matéria e espírito chegou a tal ponto que os levou a desconsiderar a realidade do pecado sobre eles. Para esses falsos pregadores nada praticado pelo corpo poderia mesmo atingir o espírito. O apóstolo, portanto, desmascara a mentira de se ter uma nova vida no espírito dissociada de uma nova conduta por meio do corpo. Wiersbe, (2006, p.616) soma ao assunto ao dizer:

[…] Fica claro que, na vida cristã, não se deve apenas “falar”, mas também “andar” ou viver segundo aquilo que se crê. Estando em comunhão com Deus (se “andarmos na luz”), a vida servirá para corroborar o que se diz com os lábios. Mas quem vive em pecado (se “andarmos nas trevas”) tem uma existência que desmente o que diz e que o transforma em hipócrita.

3.2  Resposta ao conhecimento superior (gnose)

Os falsos mestres acreditavam na superioridade do conhecimento que eles tinham a respeito de Cristo. Criam que o conhecimento era o caminho da salvação. Por outro lado, o apóstolo João revela que o verdadeiro conhecimento de Cristo não se manifesta apenas no intelecto, mas também em uma conduta submissa aos mandamentos de Deus. João aborda o assunto da seguinte maneira:

[…] Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade. Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele: aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou. (1 João 2:3-6).

3.3   Resposta à falta de empatia gnóstica

 Como já visto antes, é possível que em consequência ao desprezo do mundo material e do corpo, os gnósticos terminavam por não darem muita importância as necessidades matérias de alguns menos favorecidos. Em contraste, João afirma que o verdadeiro cristianismo também é demonstrado pelo amor fraternal: “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. […]” (1 João 4: 7-8). J. Kistemaker, (2006, p.284) refere-se incisivamente ao ponto em questão:

Esses enganadores ignoram os mandamentos ao se recusarem a amar seu irmão em Cristo. De fato, João escreve: “Aquele que odeia seu irmão está na escuridão; ele não sabe onde está indo, pois a escuridão o cegou” (2.11). João não tem medo de chamar essas pessoas de “filhos do diabo” (3.10); eles odeiam seu irmão (2.9; 3.15; 4.20) e se recusam a suprir as necessidades desse irmão quando poderiam fazê-lo (3.17).

3.4  Resposta a negação da divindade de Jesus

No capítulo 2, versículos 22 e 23 da primeira carta, João toca no erro fundamental que os gnósticos cometiam acerca da divindade de Jesus, a saber, a separação que faziam entre o Cristo divino e o homem de Nazaré. Nas palavras do próprio apóstolo:

“[…] Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai. (1 João 2:22-23).

Para melhor compreensão do versículo 22, é importante ressaltar que na primeira metade do II século, um mestre conhecido como Basílides, liderou uma corrente gnóstica que propagou um ensino deturpado a respeito do Filho de Deus. O principal erro de Basílides e seus discípulos foi separar o Cristo divino do homem Jesus, negando assim a sua divindade. Vale lembrar que no primeiro século da era cristã, Cerinto e outros falsos mestres propagaram uma forma incipiente deste mesmo erro o qual João confrontou.

Os anticristos mencionados no texto estavam ensinando que Jesus nasceu de forma natural, viveu e morreu como homem. Esses mestres acreditavam que o mensageiro divino que se apossara do homem Jesus por ocasião do seu batismo seria incapaz de sofrer, por isso, teria abandonando-o na cruz.  Na primeira parte do versículo 22 encontra-se o erro dos opositores do evangelho, isto é, eles separavam o Jesus humano do Cristo divino, negando assim a encarnação, consequentemente a divindade de Jesus. “[…] Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? […]”. (1 João 2.22). Ao negarem a divindade de Jesus terminavam por negar também o Pai que enviara seu Filho ao mundo. “[…] Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. […]”. (1 João 2.22).

3.5  Resposta a negação da humanidade de Jesus

Se por um lado, os ensinos de Cerinto já perturbavam os cristãos no primeiro século com a negação da divindade de Jesus, por outro, o docetismo de Valentino na sua forma embrionária já ameaçava a igreja, pois negava a verdadeira humanidade do Salvador. No prefácio da primeira carta (1. 1-4), João deixa claro que entre outras coisas, ele tinha a intenção de testificar o que ele e os demais apóstolos ouviram e viram a respeito da encarnação de Cristo. Os primeiros versículos evidenciam que o apóstolo pretendia combater ensinos deturpados a respeito da pessoa de Jesus Cristo, entre eles, a negação da sua humanidade.

O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada), o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa. (1 João 1. 1-4).

Para João, Jesus Cristo era tanto Deus como verdadeiro homem em uma só pessoa. No texto supra, o apóstolo amado confirma que o Cristo Filho de Deus assumiu um verdadeiro corpo humano e que ele e os demais apóstolos o ouviram, o viram e tocaram nele (1 João 1.1,2). O texto é claro em mostrar que Jesus Cristo entrou na história humana de forma concreta: “e a vida se manifestou”. O Filho de Deus não era uma abstração, um ser metafísico que não tem contato com a realidade física. Jesus era Deus e homem, uma pessoa extraordinária que marcou a história com sua poderosa presença.

Em outro texto, o apóstolo reafirma que Jesus Cristo não era apenas uma aparência, uma teofania conforme os docéticos ensinavam. Segue o que diz a própria Escritura:

[…] Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. […]. (1 João 4. 2-3).

Em 1 João 4.2, o apóstolo amado adverte seus leitores para a seguinte verdade: “[…] todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus […]”. Fica claro que a confissão da verdadeira humanidade de Jesus Cristo é um ensino que procede daqueles que realmente conhecem a Deus. Por outro lado, a negação da encarnação serve para revelar o espírito do anticristo que já operava por trás dos falsos profetas: “[…] e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. […]” (1 João 4.3).

Reconhecendo a preciosidade dos versículos mencionados acima, Grudem, (2010, p.444-445) diz: “[…] O apóstolo João entendia que negar a verdadeira humanidade de Jesus era negar um fato bem central do cristianismo, de modo que ninguém que negasse que Jesus veio em carne era enviado por Deus. […]”. A verdadeira humanidade do Redentor é uma doutrina bíblica que a igreja vem defendendo no decorrer dos séculos.

4.    RELEVÂNCIA ATUAL

 Certamente a igreja obteve grande vitória sobre o gnosticismo. Contudo, embora não exatamente como antes, é inegável que muitos dos seus ensinos continuam perturbando a comunidade evangélica em todo o mundo. Mencionaremos algumas manifestações que apontam para algum tipo de gnosticismo atual. Por exemplo, quando a conduta diária não se harmoniza com a Lei de Deus, estamos diante do indiferentismo moral, isto é, diante de pessoas que professam um novo nascimento, sem no entanto, darem sinais de progresso na santificação. Essa é uma atitude claramente gnóstica, pois entende que é perfeitamente possível um novo nascimento espiritual sem que isso implique em mudanças comportamentais.

Expressando com outras palavras o que fora supracitado, para alguns, a salvação é para a alma, jamais para o corpo físico. Todavia, o cristianismo bíblico valoriza a matéria (incluindo o corpo) como parte da criação e da redenção de Deus. Logo, aqueles que insistem em professar a fé cristã e ao mesmo tempo vivem como mundanos, agem em pleno acordo com o dualismo gnóstico. Considerando que o ser humano é uma unidade psicossomática, concluímos que o Espírito Santo transforma não somente o espírito humano, mas também o comportamento físico. “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”. (Romanos 12.1).

Outro ponto de destaque é o seguinte: a exemplo dos gnósticos que assediavam os crentes primitivos negando a divindade de Jesus, nos últimos 200 anos os liberais tem perturbado a igreja com essa mesma heresia. Assim como os infiéis se infiltraram na comunidade cristã primitiva e tentaram persuadir os fiéis a acreditar em um Cristo meramente humano, os liberais tem usado os seminários, livros e os púlpitos das igrejas para anunciar que Jesus foi apenas um homem notável, um referencial no campo da moralidade. Porém, rejeitar a divindade de Cristo é comprometer a própria salvação, visto que a mesma só poderia ser concretizada por alguém que fosse plenamente humano e divino ao mesmo tempo. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.”. (João 1.14).

Quando o assunto é o conhecimento (gnosis), não é incomum encontrarmos entre muitos evangélicos e denominações uma supervalorização das experiências em detrimento da revelação especial, a saber, a Bíblia. Assim como os primeiros gnósticos deturpavam as Escrituras Sagradas afirmando possuir um conhecimento superior e uma intuição esotérica que só estava disponível aos iniciados no sistema religioso que professavam, muitos na atualidade fundamentam a fé nas experiências com o mundo suprassensível em detrimento das verdades objetivas reveladas nas páginas da Bíblia.

Lamentavelmente muitos líderes neopentecostais tem afirmado que no fundo o que importa não é a doutrina, mas a experiência. Em contraste, Paulo afirma que a Escritura é útil para o ensino (2 Timóteo 3.16). A palavra ensino, vem do grego, didaskalia, que significa, doutrina, ou seja, a Bíblia é a fonte das doutrinas corretas. Em Atos 2.42 é dito que os discípulos perseveraram na doutrina dos apóstolos. Portanto, temos a seguinte certeza: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.”. (2 Timóteo 3.16-17).

Ressalta-se ainda que, a exemplo dos gnósticos antigos e atuais, não é de se admirar que existam aqueles que acreditam pertencer a uma “casta superior” no meio do povo de Deus. Entre eles encontramos os “superapóstolos” e os demais que acreditam terem ascendido a uma posição privilegiada na espiritualidade por meio de experiências místicas.  Tristemente esses falsos mestres tem enganado muitos indoutos e incautos. Por outro lado, enquanto a velha heresia gnóstica continua perseguindo os discípulos de Cristo, as Escrituras Sagradas prosseguem exortando os cristãos para que avancem batalhando, diligentemente, pela fé (corpo de doutrinas cristãs) que uma vez por todas foi entregue aos santos (Judas 3).

Por fim, uma pergunta para uma sincera reflexão: qual a melhor opção, seguirmos as experiências e orientações subjetivas, místicas e herméticas de homens com seus posicionamentos corrompidos que mudam com o passar do tempo, ou nos mantermos firmes e fundamentados na Bíblia, que como um todo, tem mais de 3.200 anos de credibilidade, cujo os ensinamentos tem sido repassados pelos nossos avós, pais, pastores e homens piedosos? Em que base estamos fundamentando nossas crenças e valores? “A lei do Senhor é perfeita, e revigora a alma. Os testemunhos do Senhor são dignos de confiança, e tornam sábios os inexperientes.”. (Salmos 19.7).

5.    CONCLUSÃO

De uma maneira ou de outra, o povo de Deus sempre foi perseguido. O salmista revela o sofrimento de Israel desde sua concepção como nação: “Muitas vezes me angustiaram desde a minha mocidade, Israel que o diga.”. (Salmos 129.1). Ao contrário do que alguns pensam, o Novo Testamento revela que a igreja cristã já nasce em meio aos mais diversos desafios, os quais deveria enfrentar para sua própria sobrevivência. Como já foi dito, é provável que o gnosticismo tenha sido o maior desafio da igreja primitiva. Infelizmente essa heresia antiga continua perturbando os cristãos.

A pós modernidade tem se caracterizado, entre outras coisas, pelo pluralismo religioso e pelo relativismo. A presente época é de incertezas e inseguranças. Presencia-se um mundo que está em constante mudança, onde nada é estável. Não há como negar o espantoso número de religiões espalhadas pelo mundo, o crescente número de novas igrejas, a mercantilização da fé, o número cada vez menor de pessoas comprometidas com as verdades bíblicas, a ascensão de líderes corruptos que deturpam as Escrituras em benefício próprio e uma intolerância radical contra todos que professam verdades absolutas.

Por outro lado, na sua primeira carta, João deixa claro que o povo de Deus não pode se fundamentar nas especulações, na pluralidade e no relativismo oriundos de homens perversos que deturpam as Escrituras para a própria condenação. O apóstolo posiciona-se com firmeza em defesa da fé genuína. Outrossim, a comunidade evangélica atual não precisa de modismos, dos autodenominados “apóstolos”, de novas revelações, de práticas esotéricas, de um conhecimento superior, de templos suntuosos ou de inovações na liturgia do culto. A maior necessidade da cristandade é voltar-se urgentemente para as verdades bíblicas e proclamá-las com ousadia e destemor.

Enquanto o mundo prossegue sob a influência de várias heresias gnósticas, do pluralismo, do relativismo e das incertezas, a primeira carta do apóstolo João nos leva para um cenário de doutrinas verdadeiras e firmes. São ensinamentos que não mudam com o passar do tempo, que se aplicam em todos os lugares e culturas, portanto, não podem ser negociadas, pois são verdades absolutas de Deus. Assim sendo, as Escrituras Sagradas são um porto seguro no mar agitado das incertezas e inseguranças da contemporaneidade. Mesmo que tudo esteja em constante mudanças, nossa segurança encontra-se nas palavras do profeta que diz: “Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente.”. (Is 40.8). Glória somente a Deus!

REFERÊNCIAS

GONZÁLEZ, Justo L. Retorno à história do pensamento cristão. São Paulo: Hagnos, 2011.

KELLY, J.N.D. Patrística: origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009.

OLSON, Roger E. História da teologia cristã: 2 000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Editora Vida, 2009.

PIPER, John. Finalmente Vivos: O que acontece quando nascemos de novo? São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2011.

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento: volume II. Santo André, SP: Geográfica editora, 2006.

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. Belo Horizonte, MG: Editora Vida, 1996.

RADMACHER, Earl D; ALLEN, Ronald B; HOUSE, H. Wayne. O Novo Comentário Bíblico – Novo Testamento. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2010.

CAIRNS, Earle Edwin. O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja Cristã. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.

ERICKSON, Millard J. Introdução a Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.

STOTT, John R. W. 1, 2 e 3 João: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2011.

GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 2010.

KISTEMAKER, Simon J. Comentário do Novo Testamento: Tiago e Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

LOPES, Augustus Nicodemus. Interpretando o Novo Testamento: Primeira Carta de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.

HOEKEMA, Anthony A. Salvos pela Graça: A doutrina bíblica da salvação. 3 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2001

Pr. João Rafael de Oliveira Filho

Pastor da Igreja Cristã Evangélica em Vinhais, São Luís – MA. Bacharel em Teologia Pastoral pelo Seminário Cristão Evangélico do Norte – SCEN, Bacharel em Teologia pela Faculdade Kurios – FAK, Licenciado em Filosofia pela Faculdade Evangélica do Meio Norte – FAEME, Pós Graduado em Docência do Ensino Superior pelo Instituto de Ensino Superior Franciscano – IESF, Mestrando com área de concentração em Pregação Expositiva pelo Seminário Cristão Evangélico do Norte – SCEN, atua como Professor nas áreas de Teologia, Filosofia, Música e Informática. Casado com Elzonete da Silva Oliveira, pai de Gerson Alef, Lays Rafaelle e Nicole Rafaelle.

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LONGEVIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO: LITERAL OU FIGURADA?
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LONGEVIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO: LITERAL OU FIGURADA?

É intenso o debate sobre a longevidade das primeiras pessoas citadas na Bíblia o que inevitavelmente gera inúmeras interpretações e consequentemente propostas bem distintas umas das outras, as quais nem sempre levam em conta o compromisso hermenêutico com as Escrituras, sendo às vezes apenas o resultado de uma percepção pessoal ou influência de alguma corrente de pensamento que se popularizou progressivamente.

Entre tantas tentativas de se encontrar uma interpretação mais adequada, algumas mais conhecidas são citadas aqui, inclusive com algum sentido lógico, mas sem fundamento histórico, teológico ou textual:

  1. A maneira de contar os anos era diferente;
  2. O ano deles era muito menor que o nosso;
  3. As idades nas genealogias são por geração e não por pessoa;
  4. Essas idades são multiplicadas por

Por serem apenas resultado de um esforço humano de dar uma resposta para o texto bíblico estas argumentações são facilmente refutadas como se pode ver nos contra-argumentos listados abaixo correspondente a cada um dos argumentos citados acima:

  1. O ano era regido pelo mesmo ciclo de hoje, Adão e Noé por exemplo, trabalhavam com a terra e plantavam segundo as estações, o homem urbano moderno é que não sabe acompanhar os ciclos da natureza, mas todo trabalhador rural conhece muito bem;
  2. Se o ano deles fosse menor do que hoje, as estações seriam diferentes naquela época, mas nunca houve mudança conhecida no ciclo dos planetas e satélites;
  3. Se a contagem dos anos nas genealogias fosse por geração, os personagens que aparecem posteriormente com a idade semelhantes às de hoje seria mais distorcida ainda;
  4. Se for dividir a idade por 10 tomando por base o nascimento dos filhos, Adão gerou a Sete quando tinha 13 anos, sendo que este não era o filho mais velho dele, para ficar só neste

Duas genealogias são muito importantes de serem observadas, a de Gn 5 e Gn 11, a primeira é antes do dilúvio (genealogia de Adão), a segunda depois do dilúvio (genealogia de Noé), é interessante como há uma mudança brusca na média de idade entre ambas.

O que explica essa mudança é o ambiente onde os habitantes da época estavam quando da narrativa, pois a quantidade de água presente no planeta provocou uma mudança de comportamento genético no ser humano, um sinal do juízo de Deus que não permitiu mais ao homem viver indefinidamente depois de ter caído em pecado, daí a necessidade do dilúvio, que não apenas sepultou uma geração ímpia, mas também fez surgir uma nova geração com a idade limitada por um processo biológico.

O quadro a seguir é uma tabela feita a partir das genealogias de Adão e Noé e explica bem essa mudança – a linha vertical se refere à idade, enquanto a linha horizontal se refere as gerações – de Adão a Noé a média de idade é acima de 900 anos e constante, depois de Noé, ou seja, após o dilúvio ela decresce até se estabilizar abaixo dos 100 anos, o ponto fora da curva é Enoque que foi trasladado.

Esse gráfico explica bem a mudança que ocorreu:

Gn 5 – Genealogia de Adão a Noé (idade entre 900 e 1000 anos)
Gn 11 – Genealogia a partir de Noé (idade foi deteriorando até estabilizar abaixo de 100 anos)

O que aconteceu para provocar essa mudança? O ambiente onde a criação estava inserida mudou completamente, foi acrescentado uma quantidade de água muito acima da que ele foi criado para viver inicialmente, o que nós conhecemos como “o dilúvio”.

A mudança no ambiente provocou uma alteração nos telômeros do DNA humano, de modo que se antes ele replicava de forma completa, desde o dilúvio, ou seja, quando passou a viver em um ambiente com mais água, a replicação ficou cada vez menor até estabilizar.

O telômero é o sistema que existe no organismo e que está relacionado à longevidade do indivíduo, conforme pode ser visto no resumo do quadro abaixo:

Concluindo a argumentação, o homem foi criado para ser eterno, porém, com a sua queda toda a criação caiu junto por ser ele a coroa de tudo que havia sido criado, de modo que a terra foi amaldiçoada, o que incluiu a própria deterioração do corpo humano. Esta mudança enorme de idade foi um processo biológico e não um fenômeno sobrenatural, porém, determinado e conduzido por Deus.

Em um ato de misericórdia, Deus usou um processo natural – no caso, o dilúvio – para mudar a genética humana a fim de que o homem não vivesse demasiadamente em um estado de miséria, sofrendo todas as dores e vicissitudes do pecado.

A correção dessa situação só acontece em Cristo, porquanto nele toda a criação será redimida e o estado original para o qual o homem foi criado será finalmente perfeito e eterno.

 

Pr. Otoniel Gomes Oliveira

Pastor da Igreja Cristã Evangélica em Cidade Operária, São Luís – MA. Bacharel em Teologia pela Faculdade Kurios. Formado em Teologia Pastoral e Mestrando em Ministério pelo (SCEN). Especialista em Estudos Teológicos pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper. Treinado em Liderança Avançada e Gestão de Pessoas e Comunicação pelo Instituto Haggai. É professor do SCEN com atuação em Teologia Sistemática/Liderança. Casado com Loide, pai de Lorena e Olavo.

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